01/02/2019

Quando o tempo para


* Opinião, por Maria José Lemos


Sete horas da manhã, em sua casa, você se encaminha para apanhar seu carro para trabalhar e, de repente dois homens armados e devidamente paramentados com seus trajes e máscaras pretas lhe apontam suas armas, lhe tapam a boca e lhe avisam que, se você gritar eles lhe matam.
Calculamos o tempo de acordo com nossos relógios e não lembramos que ele de repente pode parar por vários motivos. Um deles é quando nada podemos fazer, porque quem detém o nosso tempo, não somos nós, mas outras pessoas quando se apossam dele.
Temos o poder de decidir quando iremos fazer algo, as pessoas podem ocupar nosso tempo, compromissos também e aceitamos ou não, a decisão cabe a nós.
Mas, quando não podemos decidir sobre o nosso tempo é quando a liberdade nos é arrancada abruptamente. Não podemos mais decidir, apenas obedecer. Neste momento a noção do tempo se perde, pois fica apenas dependente das decisões daqueles que o detém.
A decisão sobre o tempo que nos resta e que nada podemos fazer para detê-lo é indescritível. O sentimento de impotência diante do que é mais irracional no ser humano, ou seja, quando descobrimos o quanto o indivíduo perdeu do que é ser humano e se transformou diante de seu semelhante, é uma descoberta chocante!
Torna-se real, quando a vivenciamos. Claro que para nós, tornou-se habitual ler, ver e ouvir todos os dias sobre crimes, porém quando fazemos parte deste jogo entre a vida e a morte conseguimos descobrir como age o lado irracional do homem.
E, pensamos, por que se tornaram ladrões e assassinos? Procurar respostas na desigualdade econômica que gera a fome, o desabrigo e o desamparo e que portanto os obrigou a defenderem-se desta forma, não justifica. Felizmente não é a decisão que muitos seres humanos tomaram. Muita gente passou fome, frio e sofreu as agruras da desigualdade social e não tornou-se ladrão ou assassino.
Penso que, aqueles que decidiram não se tornarem ladrões, foram os corajosos, aqueles que não têm preguiça para trabalhar.
Não gosto de usar a palavra vagabundo quando me refiro aos meus semelhantes, mas, infelizmente não encontro sinônimo mais adequado para estes indivíduos.
A origem da palavra vem do latim ”vagabundus” que não trabalha, que não gosta de trabalhar e no sentido pejorativo “apresenta péssima qualidade”.
Bem, já que não gosta de trabalhar para viver, decidiu roubar. É uma profissão muito antiga, que infelizmente não acabou, mas se perpetua. E, com o passar dos anos, ficou mais sofisticada. Na atualidade conta com a tecnologia avançada da informatização. Pode contar com armas de fogo, veículos para empreender fugas cinematográficas.
Nada os amedronta, cercas elétricas, muros altíssimos, que mais se parecem com fortalezas, câmeras de monitoramento e tantas outras opções que o mercado oferece.                            
De onde vem a palavra ladrão, e que já é usada há muitos séculos, vem do latim ”latro/latronis’ e foi importada para o grego e a extensão semântica – salteador, bandido, ladrão .
Os métodos usados por eles são cruéis, porque perderam o respeito pelas leis, pelas autoridades, e principalmente o medo de perder a liberdade, que é o bem mais precioso que o indivíduo pode possuir.
E as vitimas são orientadas para não reagir, pois se o fizerem, com certeza a chance de sobreviver será nula. Diante de armas de fogo, armas brancas, ou agressões físicas ou psicológicas, ninguém pode reagir. É obrigado a obedecer.
Nascemos com o instinto de sobrevivência, e vivemos sempre cuidando para ultrapassar inúmeras barreiras, tentamos sobreviver a cada dia com nossas próprias forças. E, de repente nos tornamos reféns de armas de fogo apontadas para nossa cabeça. Tapam nossa boca, cruzam nossos braços para trás do corpo e nos mantém assim apenas obedecendo o comando de homens cujo instinto não sabemos onde pode chegar.
Nesse momento o tempo para, nada se pode fazer, a única coisa é procurar manter-se consciente, e rezar. Qualquer outra atitude para se defender, seria inútil e causaria o imprevisível.
O tempo que os ponteiros do relógio marcam, passam a não existir mais, é como ficar no escuro, sem noção de onde fica a porta ou a janela, ou seja, sem saída. Deixar sua vida nas mãos de mentes perturbadas é um grande risco, a sua única defesa é não perder o raciocínio coerente com a situação. A sensação da vida por um fio faz com que o tempo pare e em fração de segundos perceber que a chance de sobrevida não depende de você, pois a sensação do fim é muito intensa .
Lembrei-me de Jesus, crucificado em meio a dois ladrões, e rezei a oração que Ele nos ensinou "PAI NOSSO", então mandaram que eu calasse a boca, porém continuei a oração em silêncio.
Sobreviver a estes momentos, para aqueles que conseguem, mesmo com ferimentos, é passar por um pesadelo, é acordar para a vida, depois que um vendaval lhe arrastou sem piedade.
Ficam perguntas sem respostas, mas o tempo que parou por alguns minutos, continua para todos que conseguem acordar deste pesadelo. Viver e continuar tentando esquecer, embora consciente de que o jogo daqueles que trabalham para sobreviver é diferente daqueles que optaram por roubar bens alheios, ou seja, vagabundos. Infelizmente, estes, continuarão fazendo parte da nossa realidade.
Valentes e livres saem logo ao amanhecer para trabalhar, usufruindo a liberdade de ser livre.
Covardes e prisioneiros de sua própria escolha, neste mesmo momento, estarão voltando para seus tristes destinos, ou seja, viver fugindo da liberdade.
* Maria José Lemos é cidadã toledana e vítima da violência
Viver News – Wanderley Graeff
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