Quando o tempo para
* Opinião, por Maria José Lemos
Sete
horas da manhã, em sua casa, você se encaminha para apanhar seu carro para
trabalhar e, de repente dois homens armados e devidamente paramentados com seus
trajes e máscaras pretas lhe apontam suas armas, lhe tapam a boca e lhe avisam
que, se você gritar eles lhe matam.
Calculamos
o tempo de acordo com nossos relógios e não lembramos que ele de repente pode
parar por vários motivos. Um deles é quando nada podemos fazer, porque quem
detém o nosso tempo, não somos nós, mas outras pessoas quando se apossam dele.
Temos
o poder de decidir quando iremos fazer algo, as pessoas podem ocupar nosso
tempo, compromissos também e aceitamos ou não, a decisão cabe a nós.
Mas,
quando não podemos decidir sobre o nosso tempo é quando a liberdade nos é
arrancada abruptamente. Não podemos mais decidir, apenas obedecer. Neste
momento a noção do tempo se perde, pois fica apenas dependente das decisões
daqueles que o detém.
A
decisão sobre o tempo que nos resta e que nada podemos fazer para detê-lo é
indescritível. O sentimento de impotência diante do que é mais irracional no
ser humano, ou seja, quando descobrimos o quanto o indivíduo perdeu do que é
ser humano e se transformou diante de seu semelhante, é uma descoberta
chocante!
Torna-se
real, quando a vivenciamos. Claro que para nós, tornou-se habitual ler, ver e ouvir
todos os dias sobre crimes, porém quando fazemos parte deste jogo entre a vida
e a morte conseguimos descobrir como age o lado irracional do homem.
E,
pensamos, por que se tornaram ladrões e assassinos? Procurar respostas na
desigualdade econômica que gera a fome, o desabrigo e o desamparo e que
portanto os obrigou a defenderem-se desta forma, não justifica. Felizmente não
é a decisão que muitos seres humanos tomaram. Muita gente passou fome, frio e
sofreu as agruras da desigualdade social e não tornou-se ladrão ou assassino.
Penso
que, aqueles que decidiram não se tornarem ladrões, foram os corajosos, aqueles
que não têm preguiça para trabalhar.
Não
gosto de usar a palavra vagabundo quando me refiro aos meus semelhantes, mas,
infelizmente não encontro sinônimo mais adequado para estes indivíduos.
A
origem da palavra vem do latim ”vagabundus” que não trabalha, que não gosta de
trabalhar e no sentido pejorativo “apresenta péssima qualidade”.
Bem,
já que não gosta de trabalhar para viver, decidiu roubar. É uma profissão muito
antiga, que infelizmente não acabou, mas se perpetua. E, com o passar dos anos,
ficou mais sofisticada. Na atualidade conta com a tecnologia avançada da
informatização. Pode contar com armas de fogo, veículos para empreender fugas
cinematográficas.
Nada
os amedronta, cercas elétricas, muros altíssimos, que mais se parecem com
fortalezas, câmeras de monitoramento e tantas outras opções que o mercado
oferece.
De
onde vem a palavra ladrão, e que já é usada há muitos séculos, vem do latim
”latro/latronis’ e foi importada para o grego e a extensão semântica –
salteador, bandido, ladrão .
Os
métodos usados por eles são cruéis, porque perderam o respeito pelas leis,
pelas autoridades, e principalmente o medo de perder a liberdade, que é o bem
mais precioso que o indivíduo pode possuir.
E
as vitimas são orientadas para não reagir, pois se o fizerem, com certeza a
chance de sobreviver será nula. Diante de armas de fogo, armas brancas, ou agressões
físicas ou psicológicas, ninguém pode reagir. É obrigado a obedecer.
Nascemos
com o instinto de sobrevivência, e vivemos sempre cuidando para ultrapassar inúmeras
barreiras, tentamos sobreviver a cada dia com nossas próprias forças. E, de
repente nos tornamos reféns de armas de fogo apontadas para nossa cabeça. Tapam
nossa boca, cruzam nossos braços para trás do corpo e nos mantém assim apenas
obedecendo o comando de homens cujo instinto não sabemos onde pode chegar.
Nesse
momento o tempo para, nada se pode fazer, a única coisa é procurar manter-se
consciente, e rezar. Qualquer outra atitude para se defender, seria inútil e
causaria o imprevisível.
O
tempo que os ponteiros do relógio marcam, passam a não existir mais, é como
ficar no escuro, sem noção de onde fica a porta ou a janela, ou seja, sem saída.
Deixar sua vida nas mãos de mentes perturbadas é um grande risco, a sua única
defesa é não perder o raciocínio coerente com a situação. A sensação da vida
por um fio faz com que o tempo pare e em fração de segundos perceber que a
chance de sobrevida não depende de você, pois a sensação do fim é muito intensa
.
Lembrei-me
de Jesus, crucificado em meio a dois ladrões, e rezei a oração que Ele nos
ensinou "PAI NOSSO", então mandaram que eu calasse a boca, porém
continuei a oração em silêncio.
Sobreviver
a estes momentos, para aqueles que conseguem, mesmo com ferimentos, é passar
por um pesadelo, é acordar para a vida, depois que um vendaval lhe arrastou sem
piedade.
Ficam
perguntas sem respostas, mas o tempo que parou por alguns minutos, continua
para todos que conseguem acordar deste pesadelo. Viver e continuar tentando
esquecer, embora consciente de que o jogo daqueles que trabalham para
sobreviver é diferente daqueles que optaram por roubar bens alheios, ou seja,
vagabundos. Infelizmente, estes, continuarão fazendo parte da nossa realidade.
Valentes
e livres saem logo ao amanhecer para trabalhar, usufruindo a liberdade de ser
livre.
Covardes
e prisioneiros de sua própria escolha, neste mesmo momento, estarão voltando
para seus tristes destinos, ou seja, viver fugindo da liberdade.
* Maria José Lemos é cidadã toledana e vítima da
violência
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Wanderley Graeff
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