Artigo: O desmatamento e o lixo urbano na questão ambiental
Dilceu Sperafico*
Ao mesmo tempo em que
ambientalistas radicais culpam o agronegócio pelos desastres ambientais
enfrentados pelo País e repetem denúncias sobre o desmatamento da Amazônia, as
montanhas de lixo não param de crescer ao redor de cidades de todo o território
nacional.
Depois de mais de uma
década da criação da Política Nacional de Resíduos Sólidos, cujo prazo
estabelecido para extinção dos chamados lixões se esgota em agosto próximo, a
população urbana do País prossegue eliminando mal os restos do que consome e
colocando o Brasil entre as nações que mais produzem resíduos de plástico do
planeta.
Para completar a
tragédia, até por falta de planejamento para a superação do maior problema
ambiental do País, os catadores de resíduos recicláveis, individuais ou
reunidos em cooperativas, continuam sofrendo a exclusão social ou falta de
apoio do poder público e da própria sociedade, mesmo sendo parte essencial na
solução do problema dos lixões.
Conforme
especialistas, as empresas produtoras de alimentos industrializados e bebidas
lideram o uso de embalagens plásticas no País, que soma quase um bilhão de
toneladas ao ano e apesar de seu enorme volume e trágicas consequências para a
saúde pública, trata-se de desafio que continua sendo ignorado pelas
autoridades e a maioria da população.
Os consumidores têm
culpa nessa tragédia, porque as embalagens dos produtos adquiridos são, antes
de tudo, escolhas suas. Obviamente são os fabricantes que decidem se o
refrigerante será embalado em lata ou garrafa, seja de vidro ou de plástico,
mas a legislação deveria orientar ou conscientizar essa opção, pois do
contrário ela ficará com o mercado, a partir do custo de matérias-primas, sem
levar em contas as questões ambientais.
Na prática, é muito difícil entender e dimensionar a situação, porque os dados sobre o lixo urbano do País muitas vezes são conflitantes ou imprecisos. De acordo com relatório do Ministério do Desenvolvimento Regional, o Brasil produziu 65 milhões de toneladas de resíduos sólidos em 2019, mas levantamento da Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe), indica que no mesmo período a geração de lixo no País somou 79 milhões de toneladas.
Diante desses números
estratosféricos da sujeira e da extensão territorial do País, não há muita
diferença entre 65 milhões e 79 milhões de toneladas, mas num ponto os
resultados são coincidentes, indicando que o Sudeste vem sendo responsável pela
geração de quase metade do lixo produzido no País.
Vale ressaltar
também, que a mesma região, que abrange as maiores cidades do País, também se
destaca no ranking das que mais consomem produtos ultraprocessados ou alimentos
pré-prontos, que normalmente são embalados em plástico, vidro, alumínio, papel,
isopor ou aço, em pacotes que combinam esses materiais.
Conforme
especialistas, cerca de 25% desses resíduos vão para lixões ou aterros sem
impermeabilização do solo e, muitas vezes, sem sistemas de dispersão de gases
e/ou tratamento do chorume, pois em cerca de 10% dos municípios não são
atendidos pela coleta domiciliar, como prevê o Plano Nacional de Saneamento
Básico.
Quando foi aprovada,
a Política Nacional de Resíduos Sólidos pressupunha "responsabilidade
compartilhada" entre empresas, governos e sociedade na destinação do lixo
urbano, mas em 11 anos essas tarefas parecem haver sido esquecidas pelos
envolvidos.
*O autor é
ex-deputado federal pelo Paraná e ex-chefe da Casa Civil do Governo do Estado
E-mail:
dilceu.joao@uol.com.br
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