Covid-19: reações à vacina em crianças são raras, dizem especialistas
Para pesquisadores, risco de não vacinar supera qualquer reação
Paul Hessenay/SOPA Images/Sipa
USA |
Agência Brasil - As chances de uma criança ter
quadros graves de covid-19 superam qualquer risco de evento adverso relacionado
à vacina da Pfizer, avaliam pesquisadores da Sociedade Brasileira de
Imunizações (SBIm) e da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) ouvidos pela
Agência Brasil.
A vacina já está em uso em
crianças de 5 a 11 anos em 30 países, e cerca de 10 milhões de doses foram
aplicadas somente nos Estados Unidos e Canadá.
Membro do Departamento
Científico de Imunizações da SBP, Eduardo Jorge da Fonseca Lima tem acompanhado
os dados de vigilância farmacológica divulgados pela autoridade sanitária dos
Estados Unidos, o FDA. Entre as mais de 8 milhões de crianças vacinadas no
país, 4% tiveram eventos adversos pós vacinação, e, entre esses casos, 97%
foram leves, tranquiliza o médico. "Um evento adverso muito falado e que
preocupa as pessoas é a miocardite, que é uma inflamação no coração, que
qualquer vírus ou vacina pode causar. De 8 milhões de doses aplicadas, houve um
registro de apenas 11 casos, e os pacientes evoluíram bem", destaca.
A diretora da Sociedade
Brasileira de Imunizações (SBIm), Flavia Bravo, acrescenta que a miocardite
pós-vacinação é muito rara, e mais rara ainda em crianças, já que acomete com
mais frequência adolescentes e jovens adultos. "Observou-se uma ocorrência
raríssima de miocardite relacionada à vacina da Pfizer, 16 vezes menor que a
incidência de miocardite causada pela própria covid-19", analisa.
"São casos raros, não houve nem uma morte por causa deles e a maioria nem
precisou de internação".
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Imunizante
A vacina da Pfizer para
crianças de 5 a 11 anos tem uma formulação diferente e uma dose menor que a dos
adultos e adolescentes, com apenas 10 microgramas (0,2 mL) do imunizante. Seu
uso foi aprovado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em 16
de dezembro.
Segundo a Anvisa, a tampa do
frasco da vacina é da cor laranja, para facilitar a identificação pelas equipes
de vacinação e também pelos pais, mães e cuidadores que levarão as crianças
para serem vacinadas. Para os maiores de 12 anos, a vacina, que será aplicada
em doses de 0,3 mL, terá tampa na cor roxa.
O médico da SBP explica que,
nos ensaios clínicos, os pesquisadores buscam a menor dose capaz de provocar
uma resposta imune efetiva, e que, no caso das crianças, foi possível reduzir a
quantidade. "Percebeu-se que as crianças têm um sistema imunológico que
responde muito melhor que o dos adultos".
Reações
Os especialistas afirmam que os
pais podem esperar como eventos adversos reações comuns a outras vacinas que já
fazem parte do calendário infantil, como dor no local da aplicação, febre e mal
estar.
Flávia Bravo compara que a
frequência de eventos adversos relacionados à vacina da Pfizer em crianças tem
se mostrado inferior a de vacinas como a meningocócica b e a pentavalente, que
já são administradas no país: "A gente recomenda aos pais o mesmo que a
gente recomenda para qualquer vacina. Os eventos esperados são as reações
locais, febre, cansaço, mal-estar. Podem aparecer gânglios. Esses eventos são
todos previstos e autolimitados. Se o evento adverso estiver fora disso que ele
já espera que aconteça com as outras vacinas, é hora de procurar o serviço que
aplicou a vacina e o seu médico, se você tiver".
Sintomas que devem alertar os
pais para a necessidade de avaliação médica são febre persistente por mais de
três dias, dor no tórax e dificuldade para respirar, aconselha ele, que
reafirma que esses quadros são extremamente raros. "A gente não está
dizendo que a vacina tem 0% de risco. Estamos dizendo que a vacina é
extremamente segura, que um percentual muito pequeno vai ter evento adverso, e
a imensa maioria desses eventos adversos vai ser considerada leve",
explica Fonseca.
Covid-19 em crianças
O médico enfatiza que qualquer
risco de evento adverso é inferior ao que vem sendo observado nos casos de
covid-19 em crianças. De janeiro ao início de dezembro de 2021, um levantamento
da Fundação Oswaldo Cruz mostrou que houve 1.422 mortes por síndrome
respiratória aguda grave decorrente de covid-19 na faixa etária até 19 anos.
Outra preocupação no caso de crianças com covid-19 é a síndrome inflamatória multissistêmica pediátrica, quadro que gera inflamações em diferentes partes do corpo, incluindo coração, pulmões, rins, cérebro, pele, olhos ou órgãos gastrointestinais. Desde o início da pandemia, foram registrados 1.412 casos desse tipo no Brasil, causando 85 óbitos.
Os dados fizeram parte do
embasamento de uma nota técnica divulgada pela Fiocruz em defesa da vacinação
de crianças de 5 a 11 anos.
Outro alerta diz respeito à
disseminação da variante Ômicron, muito mais transmissível que as formas
anteriores do novo coronavírus: "diante da transmissão e avanço atual da
variante Ômicron, existe uma preocupação aumentada com seu maior poder de
transmissão, especialmente, nos indivíduos não vacinados. Isso torna as
crianças abaixo de 12 anos um grande alvo dessa e possivelmente outras
variantes de preocupação".
O pesquisador da Sociedade Brasileira de Pediatria acrescenta ainda que outro perigo é o desenvolvimento de um quadro de covid-19 longa, que pode trazer impactos cognitivos e prejuízos ao aprendizado. "O risco do adoecimento de uma criança por covid-19 e suas repercussões de curto prazo, como a própria miocardite pós-covid, as consequências da covid longa e a letalidade no Brasil, que é muito maior que em outros países, é incomparável ao risco-benefício de vacinar todas as crianças", avalia Fonseca.
Ele rechaça a ideia repetida
por movimentos antivacina de que o imunizante seria experimental: "esse
nome experimental é altamente equivocado. É uma vacina recente, que passou por
todas as fases de estudo clínico, que mostrou sua eficácia e sua
segurança".
Flávia Bravo ressalta que os
pais devem ficar tranquilos em relação à segurança da vacina. Mesmo com a
celeridade no desenvolvimento, nenhuma etapa de testagem foi pulada, os
resultados foram avaliados por outros cientistas ao redor do mundo e agora a
efetividade da vacina está sendo confirmada pelas autoridades sanitárias de cada
país que já iniciou a aplicação. "Além de já termos ensaios clínicos
pré-licenciamento que são tranquilizadores, na prática, na vida real, a gente
está observando isso também".
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