Artigo: Toda pessoa boa tira coisas boas do bom tesouro do seu coração
*Dom João Carlos Seneme
A justiça nos relacionamentos
humanos constitui o motivo principal nas leituras deste 8º Domingo do Tempo
Comum. Há uma questão fundamental: em quem se pode inspirar no relacionamento
recíproco, na correção fraterna, no julgamento em determinadas situações? A
resposta de Lucas é clara: a única fonte de inspiração é o comportamento de
Deus. O evangelista Mateus acentuava ser perfeito como Deus é perfeito; Lucas
enfatiza a perfeição na prática da misericórdia: é a regra de ouro da vida
cristã.
Somos salvos não tanto por
nossas virtudes, mas pela misericórdia que despertamos no coração de Deus por
causa das nossas necessidades e fraquezas.
A passagem de Evangelho de
Lucas (Lc 6,39-45) se articula em torno de três imagens: o olho, a árvore, o
tesouro. “Por que vês tu o cisco no olho do teu irmão e não vês a trave do teu
próprio olhos”? Por que investigas a alma de seu irmão, por que insiste em
procurar sombras em vez de luz? Essa necessidade de colocar em evidência
fraquezas e fragilidades dos outros pode esterilizar nosso coração.
Se nosso olhar é negativo,
desconfiado, impuro, começamos a desconfiar de nós mesmos também e nos tornamos
agressivos para parecer fortes, arrogantes para parecer justos, intolerantes
para parecer inteligentes, violentos para parecer corajosos. Para parecer, na
verdade! Vivemos em um tempo que supervaloriza a aparência.
Hoje Jesus nos dá uma grande
certeza: Ele vem nos dizer que “toda pessoa boa tira coisas boas do bom tesouro
do seu coração”. Todos nós temos um bom tesouro guardado em potes de barro, ou
seja, guardado na fragilidade do nosso ser e viver. Nosso primeiro tesouro é o
nosso coração.
Nossa vida é verdadeiramente
viva se cultivamos tesouros de esperança, paixão pelo bem possível, pela melhor
humanidade possível, pela melhor política possível, pela melhor convivência
possível e uma “casa comum” onde todos vivem bem e ninguém é excluído.
Os discípulos de Jesus devem prestar atenção em suas palavras e segui-lo e mudar o jeito de viver e crer. O cristianismo começa sempre em nós; a conversão começa inicialmente em mim e não nos outros. Muitas vezes somos hábeis em querer converter os outros, apontar seus defeitos, achando que os outros são sempre culpados. A conversão pessoal e contínua é princípio da ressurreição: para cada um e também para a comunidade. A Igreja se renova e ressurge e renova todos os seus membros.
Então vamos nos livrar do olhar
maldoso, mas vamos nos livrar também de tudo que não é verdade, e que alimenta
a maldade, o desprezo e a rejeição do outro. Jesus nos dá o Evangelho do bom
fruto, da fecundidade criativa, do gesto que realmente faz o bem, da palavra
que verdadeiramente consola e verdadeiramente cura.
Na próxima quarta-feira, com a
imposição das cinzas, iniciamos o Tempo da Quaresma. Tempo litúrgico que nos
prepara para a grande celebração da vitória de Cristo sobre a morte, a Páscoa,
momento em que garantiu a salvação. Dia de jejum e abstinência.
*Dom João Carlos Seneme, css
Bispo de Toledo
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