População desconhece mudanças trazidas pelo novo ensino médio
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Agência Brasil - O novo ensino
médio começou a ser implementado nas escolas brasileiras, públicas e privadas,
no ano passado. Entretanto, pesquisa do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial
(Senai) e do Serviço Social da Indústria (Sesi) sobre as mudanças que estão
sendo realizadas aponta que 55% da população estão pouco ou nada informados
sobre o modelo e apenas 15% estão informados ou muito informados.
Para
o professor da Faculdade de Educação e coordenador do grupo de pesquisa
Observatório Jovem do Rio de Janeiro da Universidade Federal Fluminense (UFF),
Paulo Carrano, o resultado não é estranho porque, de fato, essa política
pública foi feita “na improvisação”, sem o diálogo necessário com a sociedade,
em especial com a comunidade escolar de base, alunos, professores e gestores.
“Estamos
diante do desafio de uma formação cidadã, que incorpore também a formação de
valores democráticos, não apenas de acesso ao conhecimento. E isso tem que ser
feito com muito diálogo”, disse, em entrevista à Agência Brasil.
O
novo ensino médio foi aprovado por lei em 2017, durante o governo do
ex-presidente Michel Temer, com o objetivo de tornar a etapa mais atrativa e
evitar que os estudantes abandonem os estudos.
A implementação ocorre de forma escalonada até 2024. Em 2022, ela começou pelo 1º ano do ensino médio com a ampliação da carga horária para pelo menos cinco horas diárias. Pela lei, para que o novo modelo seja possível, as escolas devem ampliar a carga horária para 1,4 mil horas anuais, o que equivale a sete horas diárias. Isso deve ocorrer aos poucos.
Segundo
dados do Conselho Nacional de Secretários de Educação (Consed), mesmo em meio à
pandemia de covid-19, as secretarias estaduais mantiveram o cronograma e todos
os estados já estão com os referenciais curriculares do novo ensino médio
homologados.
Entretanto, segundo Carrano, há um descompasso entre ideias e condições objetivas de realização. Ele explica que a implementação ocorre com professores insatisfeitos pela desorganização que a reforma promoveu no cotidiano escolar, diante da falta de estrutura e laboratórios necessários nas escolas públicas para oferecer a pluralidade que a reforma do ensino médio promete.
“É
uma proposta que poderia ser melhor aproveitada se tivesse sido precedida por
reformas estruturais nas escolas, onde professores tivessem mais tempo e
dedicação exclusiva, que é uma reivindicação antiga da categoria docente, para
dar sustentação àquilo que aparece na reforma como princípio, que é a
possibilidade de escolher caminhos formativos.”
Apesar
da baixa informação, de pouca discussão na sociedade sobre a reforma, há uma
ampla concordância com relação aos princípios da política. De acordo com a
pesquisa, quando são listadas as principais mudanças, mais de 70% dos
brasileiros aprovam as principais diretrizes, incluindo a escolha dos
itinerários e novo modelo de currículo.
Com
o novo modelo, parte das aulas será comum a todos os estudantes do país,
direcionada pela Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Na outra parte da
formação, os próprios alunos poderão escolher um itinerário para aprofundar o
aprendizado. Entre as opções, está dar ênfase, por exemplo, às áreas de
linguagens, matemática, ciências da natureza, ciências humanas ou ao ensino
técnico. A oferta de itinerários, entretanto, vai depender da capacidade das
redes de ensino e das escolas.
Em
2023, a implementação segue com o 1º e 2º anos e os itinerários devem começar a
ser implementados na maior parte das escolas. Em 2024, o ciclo de implementação
termina, com os três anos do ensino médio.
Formação profissional
Entre
os resultados da pesquisa, a possibilidade de o estudante fazer um curso
técnico durante o ensino médio é aprovada por 9 em cada 10 pessoas. Para o
diretor-geral do Senai e diretor-superintendente do Sesi, Rafael Lucchesi, como
pouco mais de 20% de quem está no fluxo educacional vai para a universidade,
essa possibilidade é muito importante.
“A
reforma tem como aspecto positivo entender que o ensino médio é um período de
transição, em que parte dos jovens vai a universidade e parte vai para o
mercado de trabalho. Trazer a educação profissional para educação regular foi
um grande avanço, porque em todos os países, a maior parte dos jovens não vai
para a universidade; no Brasil, pouco mais de 20% vão para universidade. Então,
não podemos ignorar a maior parte dos estudantes que estão nas escolas e a
importância do ensino médio é esse impulsionamento para o seu projeto de vida e
carreira a partir de suas vocações”, disse.
Entre
os desafios de implementação, Lucchesi cita a formação e capacitação de
professores, a comunicação com a sociedade, em especial as famílias, e a
incorporação do itinerário de educação técnica profissional, que deve demandar
parcerias com outras instituições.
Segundo
o professor Paulo Carrano, o Brasil já tem experiências exitosas no ensino
médio profissionalizante, como os centros federais de Educação Tecnológica, os
institutos federais e algumas escolas estaduais bem organizadas, com
infraestrutura e professores valorizados.
Outros
resultados da pesquisa apontam que 87% dos entrevistados aprovam o aluno fazer
escolhas dentro do currículo que estejam relacionadas à carreira que pretende
seguir; 75% aprovam a possibilidade do aluno escolher parte das disciplinas que
pretende cursar; 72% aprovam novo modelo de currículo; e 69% aprovam aumento da
carga horária.
Para
Carrano, apesar do desconhecimento sobre o ensino médio, tal como foi
redesenhando, a população está valorizando coisas que são importantes e que
estão previstas em lei como missão dessa última etapa da educação básica.
“O
que as pessoas estão reivindicando não é necessariamente a defesa do novo
ensino médio, mas um escola pública de qualidade”, disse. “Se substituir [nas
perguntas da pesquisa] ‘novo ensino médio’ por ‘escola de qualidade’, as
pessoas vão dizer ‘sim, eu quero uma escola que tenha liberdade de escolha, que
permita a formação técnico profissional do estudante e uma escola que ofereça
as ferramentas necessárias para que os jovens aumentem seus repertórios e
possam ser cidadãos completos’”, explicou.
É
temeroso, entretanto, para o pesquisador, a substituição de disciplinas que são
importantes “para enfrentar a complexidade do mundo do conhecimento”, como
filosofia, história e sociologia, por outros arranjos de ensino relacionados ao
mercado de curto prazo e a modismos.
“Um
professor me reclamava que retiraram a carga horária de sociologia para colocar
a formação de influencer e outros nomes que são folclóricos, que têm a ver com
essa velocidade do mercado, das indústrias culturais. Ainda que a escola tenha
que dialogar, ela não pode ser refém desses tempos tão velozes, ela tem ser um
lugar de segurança, de tempo mais lento, de elaboração mais cuidadosa do
conhecimento. Ela não deve apenas espelhar aquilo que os mercados estão
demandando”, destacou.
Avaliação
A
boa aceitação das mudanças vem acompanhada do fato de que o ensino médio é a
segunda etapa escolar com pior avaliação no que diz respeito à qualidade. De
acordo com a pesquisa, a alfabetização aparece em primeiro, com 20% dos
entrevistados avaliando essa etapa como ruim ou péssima, seguida pelo ensino
médio, com 14%. O ensino fundamental tem 13% de reprovação e as creches, 11%.
Já 8% da população avaliam como ruins ou péssimos o ensino técnico e o
superior.
A
última etapa da formação básica deve preparar os jovens para o início da
trajetória profissional. Mas, para a maioria dos brasileiros, isso não tem
acontecido: 57% acreditam que os estudantes concluem a educação básica pouco ou
nada preparados para o ensino superior. Só 1 em cada 10 (13%) acha que o aluno
sai bem preparado.
Quando
a pergunta é se o ensino médio prepara para o mercado de trabalho, o índice se
repete: 57% acham que prepara pouco ou nada. Apenas 14% dos brasileiros avaliam
que o estudante termina o 3º ano preparado para ingressar no mundo do trabalho.
Além
da falta de atratividade, uma das dificuldades que precisa ser resolvida,
segundo o professor Paulo Carrano, é a própria condição do estudante,
principalmente o estudante pobre, de permanecer na escola. “É preciso pensar
nas condições objetivas para que professores deem boas aulas, mas se esse
estudante não conseguir estar na escola por falta de condições econômicas, de
mobilidade ou de segurança, não teremos estudantes para dialogar”, argumentou.
Expectativas
A
percepção de que o ensino médio não tem cumprido seu propósito e a avaliação
positiva das principais mudanças previstas no novo modelo se desdobram em
expectativas. Entre quem está muito informado ou informado sobre o novo ensino
médio, 55% acreditam que o potencial para melhorar a formação do aluno é grande
ou muito grande. Na população geral, esse índice é de 40%.
Outros
resultados da pesquisa apontam que 83% acreditam que o novo ensino médio
desenvolverá os conhecimentos, habilidades e atitudes necessárias para os
jovens; 83% que as escolas brasileiras formarão jovens mais preparados para os
desafios e demandas do atual mercado de trabalho; e 80% acham que promoverá a
elevação da qualidade do ensino no país.
Para
Paulo Carrano, entretanto, é preciso avaliar com cuidado e dialogar sobre as
mudanças e incorporações curriculares. Para ele, um dos desafios em se largar
repertórios inovadores é a adequada formação dos professores. “Embora haja
professores fazendo coisas interessantes, têm outros improvisando de maneira
inadequada”, disse
Ele
destaca, por exemplo, o Projeto de Vida, que é um componente curricular do novo
ensino médio ligado ao desenvolvimento de competências socioemocionais do
estudante, para que ele construa sua própria trajetória profissional, acadêmica
e pessoal com autonomia.
“Eu vejo com bons olhos, os jovens têm dito que se sentem muitos sozinhos para fazer as escolhas dos caminhos formativos e, com toda dificuldade, eles têm gostado de ter alguém conversando sobre o futuro. Mas como está sendo feito? O Projeto de Vida está sendo pensado como escuta profunda sobre as reais condições de tomada de decisões para se fazer escolhas ou está sendo feito muito mais como oficina motivacional futurista e muitas vezes tentando convencer o jovem que ele não pode sonhar mais do que ele gostaria de sonhar?”, questionou Carrano.
A
pesquisa do Senai e do Sesi ouviu 2.007 brasileiros, com idade a partir de 16
anos, em abordagem domiciliar, de 8 a 12 de dezembro de 2022, nos 26 estados e
no Distrito Federal. A amostra repete o perfil da população brasileira segundo
renda, região e perfil da cidade (capital, região metropolitana e interior). A
margem de erro é de 2 pontos percentuais, com intervalo de confiança de 95%.
Editoria: Wanderley Graeff e Karine Graeff
Ger. Administrativa: Luciane Graeff
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