Um ano de guerra da Ucrânia, e então?
*
Por Mateus Dalmáz, doutor em História
Após um ano de guerra da Ucrânia, algumas perguntas emergem: Qual o estágio do conflito? E quais foram mesmo os motivos da invasão russa? Vale a pena relembrar a trama política que levou ao cenário beligerante antes de avaliar a situação atual.
Desde
o final da Guerra Fria, a Rússia vem tentando manter a liderança política e
econômica que tradicionalmente exerceu no leste europeu, especialmente nas
regiões que pertenceram à União Soviética. Fragilizada economicamente desde os
anos 1980, a Rússia assistiu à expansão do Ocidente sobre a região no decorrer
das últimas décadas: tanto a União Europeia quanto a Organização do Tratado do
Atlântico Norte (Otan) incorporaram Estados que, no passado, orbitavam na
esfera de influência soviética. Percebe-se, aqui, uma disputa de poder entre
grandes potências: Estados Unidos (via Otan) e União Europeia, de um lado, com
interesse em ampliar conexões econômicas, políticas e militares na região; e
Rússia, de outro, tentando manter a hegemonia no leste europeu.
Em
2014, para dissuadir a Ucrânia de se aproximar da União Europeia, o governo de
Vladimir Putin ocupou militarmente a Crimeia (no sul da Ucrânia) e apoiou as
independências de Luhansk e Donetsk (no leste), regiões com população
russófona. Em 2022 foi a vez da Otan acenar com um convite à Ucrânia para
ingresso no pacto militar liderado por Washington. A reação de Putin foi
movimentar tropas militares até a Ucrânia, caso a Otan não limitasse a área de
atuação no leste europeu.
A
resposta do Ocidente foi ameaçar os russos com sanções econômicas. Putin,
então, ocupou Luhansk e Donetsk, no Donbass. O Ocidente, assim, impôs sanções
econômicas às duas cidades. A Rússia, então, invadiu militarmente territórios
para além da região do Donbass, iniciando uma intervenção em larga escala. A
reação do Ocidente, desta vez, foi estender as sanções econômicas para a
Rússia. Assim foi o mês de fevereiro de 2022. Um ano depois, qual o estágio do
conflito?
Tudo
indica que a Otan e a União Europeia desejam estender ainda mais a guerra. Por
quê? Porque as duas pretensões russas durante o último ano de beligerância têm
se revelado gradual e progressivamente não favoráveis a Putin. A primeira
delas, que foi dissuadir a expansão da Otan no leste europeu, não apenas não
vem se concretizando como também tem tido um efeito contrário: o pacto militar
liderado pelos Estados Unidos vem obtendo mais aliados, coesão, contingente e
justificativas para seguir existindo, mesmo após o final da Guerra Fria; a
segunda pretensão, que foi proteger a população russófona no leste da Ucrânia,
tem se mostrado ineficiente, já que a maioria dos mais de 6 mil mortos e 9 mil
feridos no conflito é de pessoas da região do Donbass, onde o apoio à causa
russa vem se tornando menor.
Do
ponto de vista russo, também há uma tendência de manutenção do conflito. Por
quê? Porque, para Putin, a guerra vem servindo de sustentação “ideológica” do
governo, que, em nome do esforço bélico, reforça o discurso nacionalista (com
apelo à identidade nacional), militarista (com uso de “hard power”, isto é, do
poder político, econômico e militar) e expansionista no leste europeu, o espaço
geopolítico considerado, pela Rússia, como fundamental para as pretensões do
Kremlin de voltar a ser uma superpotência.
O
ônus das sanções econômicas, em parte, vem sendo diluído pela compra do
petróleo e do gás natural russo pela China e pela Índia, pela inflação desses
produtos na Europa central e pela alta taxa de juros praticada pelo banco
central russo.
A
manutenção do conflito também vem sendo a tendência por parte do presidente
ucraniano, Volodymyr Zelensky, uma vez que a Ucrânia tem solicitado, obtido e
aceitado ajuda militar por parte dos membros da Otan: blindados dos Estados
Unidos, do Reino Unido e da Alemanha; mísseis dos Estados Unidos; drones da
Turquia.
A
participação indireta do Ocidente na guerra tem sido responsável pelo terceiro
estágio dos confrontos: no primeiro, de fevereiro a abril de 2022, a Rússia
cercou Kiev e bombardeou o norte da Ucrânia; no segundo, de abril a julho de
2022, os ataques russos se concentraram no leste e no sul; no terceiro, desde
julho (até o momento), graças ao apoio material da Otan, tem ocorrido uma
contraofensiva ucraniana, no nordeste e no sul, razão pela qual a guerra tem se
prolongado, sem que Moscou obtenha, de Kiev, a confirmação de que não fará
parte das organizações internacionais ocidentais.
O
estágio atual da guerra, então, é de manutenção do estado de beligerância, uma
vez que, a longo prazo, o Ocidente deseja desgastar a Rússia, a Ucrânia orbitar
no Ocidente, a Rússia manter “status” de grande potência, a China dominar a
economia do leste europeu. Enquanto isso, seguem os milhares de mortos e os
milhões de refugiados.
* Mateus Dalmáz é professor de História e Relações
Internacionais da Univates – Universidade do Vale do Taquari, Lajeado-RS
Estimativa de perdas com a guerra
Mortes: elo menos 42 mil pessoas
Ferimentos não fatais: pelo menos 54 mil pessoas
Desaparecidas: pelo menos 15 mil pessoas
Desalojadas: aproximadamente 14 milhões de pessoas
Edifícios destruídos: pelo menos 140 mil
Viver Toledo - Ano 14
Editoria: Wanderley Graeff e Karine Graeff
Ger. Administrativa: Luciane Graeff
(45) 98801-8722 - vivertoledo@gmail.com
Rua Três de Outubro, 311 – S. 403- Vila Industrial
CEP 85.904-180 – Toledo-PR
![]() |
| Reprodução - Wikimedia Commons |
Após um ano de guerra da Ucrânia, algumas perguntas emergem: Qual o estágio do conflito? E quais foram mesmo os motivos da invasão russa? Vale a pena relembrar a trama política que levou ao cenário beligerante antes de avaliar a situação atual.
![]() |
| Wikimedia Commons |
Mortes: elo menos 42 mil pessoas
Ferimentos não fatais: pelo menos 54 mil pessoas
Desaparecidas: pelo menos 15 mil pessoas
Desalojadas: aproximadamente 14 milhões de pessoas
Edifícios destruídos: pelo menos 140 mil
Danos à propriedade: aproximadamente
US$ 350 bilhões
Fonte: Reuters
Viver Toledo - Ano 14
Editoria: Wanderley Graeff e Karine Graeff
Ger. Administrativa: Luciane Graeff
(45) 98801-8722 - vivertoledo@gmail.com
Rua Três de Outubro, 311 – S. 403- Vila Industrial
CEP 85.904-180 – Toledo-PR
%20Mapa%20do%20conflito%20-%20Cr%C3%A9dito%20-%20Viewsridge%20-%20Obra%20do%20pr%C3%B3prio%20-%20Reprodu%C3%A7%C3%A3o%20-%20Wikimedia%20Commons-compressed.jpg)


.jpg)
%20Cria%C3%A7%C3%A3o%20com%20as%20bandeiras%20da%20R%C3%BAssia%20e%20Ucr%C3%A2nia%20-%20Cr%C3%A9dito%20-%20Divulga%C3%A7%C3%A3o%20-Wikim%C3%A9dia%20Commons.png)
%20Professor%20Mateus%20Dalm%C3%A1z%20l.jpg)





0 Comentários:
Postar um comentário
Assinar Postar comentários [Atom]
<< Página inicial