Senado aprova revogação de decreto das armas de Bolsonaro
Projeto de Decreto Legislativo segue para análise da Câmara
(Agência
Brasil) – Brasília - O plenário do Senado aprovou ontem (18) a revogação do
decreto do presidente Jair Bolsonaro que flexibilizou o acesso da população a
compra e posse de armas no Brasil. Por 47 votos a 28, os senadores aprovaram um
Projeto de Decreto Legislativo (PDC), do senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP) e
de outros senadores, que susta os efeitos da flexibilização.
A
matéria segue agora para análise na Câmara dos Deputados, mas representa uma
derrota do presidente Bolsonaro, que tinha no tema uma das suas principais
bandeiras de campanha. A maioria dos senadores argumentou que a alteração das
regras para o acesso às armas por meio de decreto era inconstitucional e
deveria ser feita por projeto de lei.
Na
semana passada, a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Casa rejeitou por
15 votos a 9 o relatório do senador Marcos do Val (Cidadania-ES), que era
favorável ao decreto presidencial. Após a decisão da comissão, senadores teriam
recebidos ameaças e ofensas após se posicionarem contra o decreto.
Ao
proclamar o resultado, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), disse
que a Casa deu uma demonstração de maturidade política e grandeza no episódio e
se solidarizou com os senadores que receberam ameaças “por exercerem o direito
de se manifestar” em torno dessa matéria.
“Como
presidente sempre farei a defesa desse Poder. Esta é uma oportunidade onde o
Senado mostra a sua grandeza. Onde homens e mulheres enfrentaram um debate que
eu não sei se foi feito por robôs ou por pessoas”, disse.
Antes
da votação da matéria, Alcolumbre disse que determinou à Polícia Legislativa a
abertura de investigação sobre as ameaças. O presidente do Senado
disponibilizou escolta policial para parlamentares alvos dos ataques.
Debate entre senadores
Entre
as medidas previstas no decreto, assinado em maio pelo presidente da República,
estão a concessão do porte a 20 categorias profissionais; o aumento de 50 para
5 mil o número de munições que o proprietário de arma de fogo pode comprar
anualmente; a permissão para o proprietário rural com posse de arma de fogo
utilizar a arma em todo o perímetro da propriedade; a quebra do monopólio da
importação de armas no Brasil; a permissão para colecionadores, atiradores
desportivos e caçadores (CACs) poderem ir de casa ao local de tiro com a arma
com munição; o direto ao porte de armas para praças das Forças Armadas com 10
anos ou mais de experiência.
De
acordo como senador Randolfe Rodrigues, caso as regras fossem aprovadas, cerca
de 20 milhões de brasileiros passariam a ter direito à posse e porte de armas.
O senador disse que isso seria a institucionalização do “bangue-bangue” no
país. “O 'liberou geral' de armas, como está nesse decreto, não tem precedente
na ordem jurídica mundial, nem em países como os Estados Unidos, em que existe
a liberação de armas. Nem nos Estados Unidos, que, desde a independência, tem a
cultura das armas, se extrapolou tanto na posse, no porte e na
comercialização”, disse.
Também
contrário ao decreto, o senador Otto Alencar (PSD-BA) disse que o decreto se
opõe ao que determina o Estatuto do Desarmamento. O senador argumentou que,
para a aprovação do Estatuto, houve um grande debate tanto no Senado quanto na
Câmara dos Deputados. “Esse estatuto [do Desarmamento] foi discutido nas duas
Casas por muito tempo. Não há nenhum impedimento para quem queira comprar uma
arma hoje, desde que preencha os pré-requisitos estabelecidos pela lei”, disse.
De
acordo com o senador, o presidente deveria ter mandado um projeto de lei ao
invés de publicar o decreto. “O presidente da República poderia perfeitamente
mandar um projeto alterando o Estatuto do Desarmamento, mas não um decreto. Um
decreto com orientação equivocada completamente”, disse. “Mas não é possível
que um decreto possa autorizar a compra de 48 cartuchos por dia”.
O
relator do decreto na comissão, senador Marcos do Val (Cidadania-ES),
argumentou que o decreto não iria aumentar a violência e que as pessoas que
tivessem acesso à posse e ao porte de armas não poderiam ser tratadas como
criminosos. “Parem de achar que a pessoa armada, o cidadão que segue a lei, que
obedece à lei, que teme a lei, vai ser um criminoso. Nós estamos julgando todo
brasileiro como um criminoso. Então, se meu pai quiser ter arma hoje, ele é um
criminoso? A minha irmã está tirando arma, como eu falei para vocês, ela vai
ser uma criminosa?”, disse.
O
líder do governo no Senado, senador Fernando Bezerra Coelho (MDB-PE), defendeu
o decreto e disse que a medida visava dar maior “concretude” às regras
previstas na lei para a posse e porte de armas. “O decreto cuida de dar mais
concretude a diversos conceitos e expressões constantes na citada lei,
estabelecendo em diversas passagens critérios objetivos e racionais, assim
conferindo maior segurança jurídica sobre a matéria. Não houve, portanto,
qualquer inovação normativa, mas mera regulamentação, detalhamento do que já
consta no estatuto”, disse.
Bolsonaro
O
presidente Jair Bolsonaro se manifestou sobre a revogação do decreto pelo
Senado em sua conta pessoal no Twitter.
O
presidente disse que espera que a “Câmara não siga o Senado, mantendo a
validade do nosso Decreto, respeitando o Referendo de 2005 e o legítimo direito
à defesa.” Em um segundo tuíte, publicado cerca de uma hora, ele defendeu o
direito à legítima defesa. "O
direito à legítima defesa não pode continuar sendo violado! Nem todo mundo
possui condição de ter seguranças armados", escreveu.
Pesquisa recente do Ibope apontou que cerca de 75% dos brasileiros são contrários à liberação do porte de armas.
Viver News –
Wanderley Graeff c/ assessoria
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