06/04/2020

A colonada grossa e o “quase” Estado do Iguaçu

Histórias do Velho Oeste – Por Wanderley Graeff*
(Série de crônicas iniciada como“Histórias do Futebol”, adaptada para um contexto mais abrangente da vida social, política e esportiva da gente do Oeste do Paraná)
Símbolo do Território Federal do Iguaçu, o Palácio do Governo abriga a Câmara Municipal de Laranjeiras do Sul
O Oeste do Paraná hoje pode ser considerado moderno, inserido nos tempos atuais de melhor infraestrutura. Mas calma lá! Eu disse melhor infraestrutura, mas ainda longe do ideal. Vejam a BR-277. Estamos na segunda década do Século 21 e ainda não temos uma via duplicada ligando a região à capital. É o cúmulo do absurdo.
O que não é bom, é claro que já foi bem pior, e isso não faz muito tempo. A região que se transformou em celeiro do Paraná sofreu por décadas as consequências do abandono, resultado da grande distância para os grandes centros e mesmo até do preconceito do povo culto da capital, que olhava com desdém para os novos caipiras. Era a “colonada” do Sul, tambem rotulada de “gauchada grossa”, que se atrevia a torcer por Grêmio e Internacional em detrimento dos times daqui. Esse povo trabalhador e de muita fibra, ao lado de grandes levas de catarinenses, povoou a região da fronteira, enfrentando a mata virgens e ambientes inóspitos, alimentando mosquitos de toda sorte nas noites sombrias iluminadas à luz de velas, quiçá, um candeeiro cheirando forte e exalando a fumaça negra da queima da queronese.
Era a Segunda Guerra Mundial e o governo brasileiro desmembrou por decreto seis territórios em regiões estratégicas da fronteira do país para administrá-los diretamente como Territórios Federais: Amapá, Rio Branco, Guaporé, Ponta Porã, Iguaçu e o arquipélago de Fernando de Noronha. A ideia era permitir ao governo federal ocupar mais diretamente regiões fronteiriças de baixa densidade demográfica, com pequena rede urbana e reduzida presença do poder público.
Pelo Decreto-Lei lei n.º 5.812, de 13 de setembro de 1943, foi criado o Território Federal do Iguaçu. Abrangia as regiões Oeste, Noroeste e Sudoeste do Paraná e o Oeste de Santa Catarina e tinha como capital o então vilarejo de Laranjeiras do Sul (ex-Vila Xagu), que passou a se chamar Iguaçu. O território era dividido em cinco municípios: Foz do Iguaçu, Clevelândia, Iguaçu, Mangueirinha e Chapecó e dois governadores militares foram nomeados nesse tempo: João Garcez do Nascimento e Frederico Trotta. (segue após o anúncio)
Inconformados, os governantes de Santa Catarina e Paraná lutaram ferrenhamente pela reanexação dos territórios perdidos para o Iguaçu, que acabou extinto em 18 de setembro de 1946.
Após a extinção do Território Federal do Iguaçu, surgiu um movimento pela sua recriação, desta vez como estado. Isto ocorreu nas cidades onde haviam sido iniciadas obras financiadas pelo governo federal, como escolas e estradas, que foram paralisadas quando da extinção do território. Naquele breve tempo a região muito pouco progrediu e o abandono seguiu pelas décadas seguintes. O Oeste sofria como que uma punição pela secção sofrida pelo estado paranaense.
Mas aquela gente teimosa e trabalhadora não era de baixar a cabeça. As mãos calejadas pelo trabalho árduo no campo constituíram as cooperativas, enquanto nas cidades a veia do associativismo fazia acontecer para que a ausência dos governos federal e estadual fosse atenuada. O crescimento se deu mais pela teimosia da sua gente do que pelo apoio recebido de fora, salvo raras exceções. Em pouco tempo, o Oeste era o celeiro do Paraná, seu maior produtor de grãos, animais e seus derivados.
O movimento pela criação do Estado do Iguaçu foi retomado com vigor na década de 1960, e teve no advogado e empresário gaúcho Edi Siliprandi, estabelecido em Cascavel, um dos seus mais ferrenhos defensores.
Siliprandi fazia a defesa apaixonada da causa e conseguiu muitos adeptos, mas sobretudo um feito impensável que acendeu um alerta no Palácio Iguaçu: elegeu-se deputado federal e logo incendiou os bastidores do Congresso Nacional difundindo a ideia de um plebiscito pela criação do Estado de Iguaçu. Quanta ousadia. O governador do Paraná, Roberto Requião, a essa altura já envidava todos os esforços para que a proposta não passasse na Comissão de Constituição e Justiça. O sonho de uma região autônoma e com perspectiva de aceleração do seu crescimento, recuperando décadas de abandono e desleixo pelos políticos que comandavam o Paraná, estava definitivamente enterrado na tarde do dia 31 de março de 1993. Foi um golpe fatal.
De lá para cá, houve alguns avanços no processo de estruturação da infraestrutura do Oeste. Uma ferrovia meia boca foi construída e até a duplicação entre Cascavel e Toledo aconteceu. Quase nada comparado ao que a região mais produtiva gera de divisas para o Estado.
É certo que o Estado do Iguaçu, uma ideia que alimentou sonhos, ficou para trás. É certo tambem que o seu legado de luta seja a inspiração para que a região Oeste nunca mais seja lembrada simplesmente como a terra de uma colonada grossa, embora isso não nos atinja. Afinal de contas, Toledo e Cascavel pontuam há anos no primeiro e no segundo lugares no ranking dos maiores produtores do agronegócio estadual. Como produz essa colonada!

* Wanderley Graeff é o jornalista com mais tempo de atuação em Toledo. Trabalhou em jornais e emissoras de rádio e TV de Cascavel e Toledo. É diretor do Viver Toledo – vivertoledo.blogspot.com e diretor das empresas i-Bolsa e Pharma.
Viver Toledo – Editores: Wanderley Graeff e Karine Graeff
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