Desenvolver a indústria farmoquímica nacional é uma questão de soberania e temos essa capacidade
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| Nelson Ferreira Claro Junior | Diretor da Specialità Fine Chemicals |
*Nelson Ferreira Claro
Junior
Era 26 de fevereiro
de 2020. Depois da tensão em acompanhar a evolução clínica dos 34 brasileiros
repatriados que viviam na cidade chinesa de Wuhan, epicentro do novo
coronavírus, o Ministério da Saúde confirmava o primeiro caso de COVID-19 no
Brasil.
No mês de março, o
mundo tomou conhecimento de um trabalho de Gautret et. al (Hydroxychloroquine
and azithromycin as a treatment of COVID-19: results of an open-label
non-randomized clinical trial, Int J Antimicrob Agents. 2020 Mar 20;105949). As
conclusões apontavam para um possível tratamento medicamentoso para a doença: a
hidroxicloroquina.
Acompanhando a
evolução da pandemia no mundo e no nosso país, naquele momento parecia
importante para nós, da Prati-Donaduzzi, desenvolvermos tecnologia em
território nacional para a fabricação deste Insumo Farmacêutico Ativo (IFA), a
partir do qual seria possível formular medicamentos e fornecer à população.
Consideremos a nossa
capacidade e participação no mercado: Produzimos 12 bilhões de doses
terapêuticas por ano. Somos a maior produtora de medicamentos genéricos do
Brasil. Somos a maior fornecedora de medicamentos genéricos para o governo. Produzimos 32% do medicamento genérico mais
consumido no Brasil para hipertensão. Mais de 4,2 milhões de diabéticos
utilizam nossos medicamentos diariamente. Temos 42% do mercado do analgésico
mais consumido do Brasil.
Dados que indicam que
poderíamos contribuir com o país produzindo e fornecendo à população brasileira
um medicamento de qualidade e que poderia salvar milhares de vidas.
Foi com este objetivo
que no final do mês de março, iniciamos o projeto Sulfato de Hidroxicloroquina
na Specialità Fine Chemicals, laboratório de pesquisa e desenvolvimento de
processos de fabricação de insumos farmacêuticos ativos sintéticos da
Prati-Donaduzzi. Nossa equipe de pesquisadores químicos identificou a rota de
síntese mais adequada – estratégia que os químicos utilizam para produzir
substâncias complexas a partir de insumos mais simples e abundantes – e
relacionou os insumos necessários à fabricação da molécula-alvo.
Para monitorar a
qualidade do insumo produzido por nós, nossa equipe de pesquisadores em química
analítica identificou todos os insumos (padrões de referência, colunas
cromatográficas) necessários para a realização de testes de qualidade conforme
recomendações de um compêndio mundialmente reconhecido, a farmacopeia
americana.
Nossa equipe de
suprimentos realizou uma grande força-tarefa para identificar os fornecedores e
disponibilizar aos nossos pesquisadores todos os insumos por eles apontados, e
no menor tempo possível. E em pouco mais de dois meses a equipe da Specialità
conseguiu desenvolver um processo reprodutível e robusto que permite sintetizar
o Sulfato de Hidroxicloroquina em conformidade aos atributos de qualidade
estabelecidos pela farmacopeia americana. Os lotes-piloto de laboratório foram
concluídos exatamente em 03 de agosto de 2020.
Neste momento, não
sabemos se faz sentido dar continuidade ao projeto, face aos novos e mais
aprofundados estudos clínicos realizados por grupos de pesquisa de vários
países sobre a eficácia deste medicamento no tratamento da Covid-19. Mas,
provamos com fatos e dados, e não apenas com discursos hipotéticos, que o
Brasil tem capacidade de desenvolver novas tecnologias na área de insumos
farmacêuticos ativos. E em tempo muito reduzido.
Por diversas razões
que não cabem serem discutidas neste artigo, o Brasil é atualmente muito
dependente da importação de princípios-ativos do exterior: cerca de 90% de
todos os medicamentos fabricados no país utiliza IFA importado. Além da questão
econômica, deve-se ressaltar que esta condição de elevada dependência traz um
risco muito elevado à população brasileira: a da falta de medicamentos.
Desenvolver a
indústria farmoquímica nacional é uma questão de soberania e de segurança
nacional, e a Prati-Donaduzzi está pronta para contribuir para a mudança deste
cenário.
*Nelson Ferreira
Claro Junior | Diretor da Specialità Fine Chemicals
Viver Toledo –
Editores: Wanderley Graeff e Karine Graeff
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