Artigo: Uma voz grita no deserto: preparai o caminho para o Senhor
*Dom João Carlos
Seneme
A liturgia da
Palavra deste 2º Domingo do Advento é marcada por símbolos de sabedoria e
poesia; fazem parte da Bíblia e também da cultura humana porque se referem à
sabedoria de Deus e a verdade do ser humano. O deserto, o caminho e a voz
evocam o caminho da vida com suas luzes e sombras, crises e esperança; uma
existência, muitas vezes, semelhante a um deserto estéril, onde, de repente,
quase por mágica, uma voz ressoa anunciando a boa nova. O deserto, uma região
grande e assustadora, um lugar de perigo e silêncio, de fome, sede e
tempestades de areia, lugar de lobos e escorpiões, de poderes adversos à vida
humana... se transforma em um símbolo de amor e vida quando Deus abre um
caminho, faz correr água e faz descer o pão do céu.
O início do
Evangelho de Marcos apresenta o novo capítulo que Deus escreve na história do
seu povo e na vida humana. O novo capítulo se intitula “Jesus Cristo, Filho de
Deus”, apresentado por Marcos como o Senhor para quem é preparado um caminho no
deserto.
O deserto de que
falamos aqui não é um lugar geográfico, ainda que o contexto nos permita
identificá-lo com o deserto de Judá, um lugar que faz parte da história de
Israel. Em todas as culturas, o deserto assumiu um claro valor simbólico,
denotando a ausência de relações, o lockdown do isolamento, o andar sem rumo.
Desertos são também aqueles criados pela nossa civilização: solidão que habitam
as nossas cidades e lares. O deserto lembra a situação precária que marca a
vida humana, a fragilidade dos projetos. No deserto, o trabalho das mãos
humanas é constantemente medido pela inatividade e pelo fracasso.
A humanidade sai
bem busca de caminhos diferentes para encontrar uma resposta a essas perguntas.
Uma resposta é oferecida pela boa nova de Marcos: uma voz que clama preparai o
caminho do Senhor. A voz, em Marcos, se refere às palavras dos profetas e à voz
de João Batista que os representa, mas acima de tudo se refere ao profundo
vínculo de aliança que unia Deus e seu povo no monte Horeb, quando Deus fez sua
voz ser ouvida do céu (Dt 4, 36).
Aqui está o
sentido e o motivo da boa nova anunciada por Marcos: à humanidade que vive na
solidão do deserto e está em busca, Deus não deixa faltar a sua voz.
Oxalá, ouvísseis
hoje a sua voz, proclama o salmo 95. A voz, portanto, pede escuta e obediência.
O batismo de conversão, que João Batista administra no deserto, diz
precisamente isto: Deus não te deixará só no deserto da vida, se ouvires a sua
voz.
O Senhor vem.
Porem somente se prepararmos o caminho: sua vinda será um encontro de Salvação.
A mensagem, que chega até nós hoje pela boca de João Batista, indica conversão
a Deus e empenho na missão de testemunhar. Como João devemos ser uma voz que
grita para anunciar Cristo ao mundo.
*Dom João Carlos
Seneme, css
Bispo de Toledo
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