O agribusiness e a era dos complexos agroindustriais
* Cesar da Luz
A
revolução na esfera tecnológica que invadiu o meio agropecuário acabou
agregando valores à matéria-prima proveniente da criação animal e da produção
de grãos, integrando o campo à cidade na geração de emprego e renda. Sabe-se
que a agropecuária contribuiu diretamente para a industrialização em áreas
urbanas destinadas a abrigar as plantas agroindustriais, caso dos complexos
frigoríficos e de outros empreendimentos que transformam o que o meio rural
produz.
Agora,
pode-se estar visualizando uma nova era de industrialização com implantação de
complexos agroindustriais, mas que nesse cenário de oportunidades se contemple
o produtor rural, que muitas vezes fica apenas no início da cadeia. Aliás, o
tema dos complexos agroindustriais como parte do agribusiness já foi defendido
por especialistas do setor no início dos anos 80, no Brasil, através de
publicações que abordaram o assunto, as quais, ainda que esboçadas de maneira
bem abrangente, não dispunham dos recursos, inovações, dados e informações que
temos atualmente, após consolidada a Agropecuária de Precisão e também do
surgimento do “Agro 5.0”.
A
proposta que defendemos é de incluir na implantação dos complexos
agroindustriais, dentro das oportunidades que surgiram nos últimos anos,
aqueles que estão no início da cadeia produtiva de alimentos, os produtores
rurais, para que esses possam agregar renda à sua atividade primária,
aproveitando-se de subprodutos da atividade, como é o caso clássico do DDG do
milho que foi usado na produção de etanol, negócio tão em evidência no Brasil,
“país dos biocombustíveis”, e também dos dejetos animais de confinamentos, que
podem ser transformados em adubo orgânico ou organomineral, com a adição do NPK
e de outras fontes de cálcio, como a alga marinha lithothamnium, que certamente
passará a ser usada em maior escala, seja na formulação de fertilizantes, seja
na ração animal.
Dessa
forma, se ganha com o grão, ou com a cabeça animal, e se ganha também com a
produção de biocombustíveis, de fertilizantes, de insumos para ração, de biogás
e até mesmo com o “crédito carbono”. Ou seja, a conta passa a ser muito
vantajosa e positiva do ponto de vista econômico, sem contar com o incremento
da produção agrícola com ganhos de produtividade na safra.
Qual
o produtor de grãos que ao menos não se interessaria em “sentar e avaliar” a
oportunidade de investir em uma esmagadora, em uma extratora de óleo de soja,
milho, algodão, ou em uma usina de etanol de milho, inclusive com
aproveitamento do DDG para ração animal usada em “boitel”, com múltiplos ganhos?
Qual
o avicultor que ao menos não se interessaria em “sentar e avaliar” a
oportunidade de aproveitamento da cama de aviário peletizada para ser usada na
lavoura como fertilizante? Ou qual o suinocultor que não se interessaria em
avaliar o aproveitamento do dejeto do plantel, um passivo ambiental que pode se
tornar um ativo financeiro se for usado como adubo? Nesse caso, podemos até
arriscar a afirmar que “uma gota de dejeto vale mais do um quilo de suíno
vivo”, diante da atual crise da atividade, caso se consiga implantar uma
fábrica de adubo orgânico após se separar as fases dos dejetos, usando-se a
parte sólida estabilizada como fertilizante, e a parte líquida para produção de
biogás.
Os
complexos agroindustriais têm total viabilidade econômica e ganhos garantidos,
inclusive com excelente business plan, como é o caso das usinas de etanol de
milho que rendem muito aos investidores, nesse contexto de agregação de valores
e geração de novas fontes de renda ao produtor rural e a quem empreende no
agronegócio.
No
entanto, é preciso que fique clara a relação direta entre os elos da cadeia
produtiva, do produtor ao varejo, passando pela agroindustrialização e
incluindo todo o processamento e a distribuição. E que se faz necessária uma
interação de vários setores e atividades, em um cenário onde o empresário rural
seja devidamente recompensado pela produção primária e por sua participação em
quaisquer investimentos feitos nas fases seguintes da cadeia, proporcionando-se
dessa forma um equilíbrio econômico-financeiro em sua atividade e evitando que
a riqueza gerada na propriedade fique nas mãos apenas de quem agrega valores
até que o produto chegue ao consumidor final, seja na forma de um
biocombustível, de uma fonte de energia, de óleos vegetais, ou de fertilizantes.
Porque o que está ocorrendo no campo é um achatamento na margem dos produtores
rurais, sendo que em muitos casos ele sequer consegue fazer frente aos custos
de produção, cada vez maiores. É isso que estamos propondo que seja analisado
com mais profundidade e atenção, que se “sente para avaliar” as oportunidades
que existem na forma de complexos agroindustriais.
* Cesar da Luz é Diretor-Presidente do Grupo Agro10, especialista em agronegócios. E-mail: cesardaluz@agro10.com.br
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