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| Luta passa pelo cultivo doméstico com autorização da justiça - Arquivo pessoal/Fabio Carvalho |
“Faz
nove anos que eu nunca mais precisei levar minha filha para o pronto socorro
por causa de convulsão”. O relato é de Cidinha Carvalho, mãe de Clárian
Carvalho, hoje com 19 anos, e que trata a Síndrome de Dravet com uso do óleo de
cannabis, remédio extraído da cannabis sativa, planta popularmente conhecida
como maconha.
Na
último dia 31 de janeiro, foi sancionada a Lei 17.618/2023, que institui a
política de fornecimento gratuito desses medicamentos no Sistema Único de Saúde
(SUS) em São Paulo. No Paraná, será promulgada no dia 13 de fevereiro lei que que
desburocratiza o acesso a medicamentos e produtos à base de canabidiol.
Em
São Paulo, a partir de agora, o governo paulista terá de regulamentar e
estabelecer regras para distribuição dos medicamentos. Em 30 dias, a partir da
publicação no Diário Oficial, deverá ser composta uma comissão, formada por
técnicos, associações de pesquisa e representantes de pacientes e familiares,
que ficará responsável por formular as diretrizes. A lei deve entrar em vigor
em 90 dias.
Decisão judicial
Antes,
os remédios só eram fornecidos pelo governo paulista por meio de decisão
judicial. Em nota, o governo diz que a medida “minimiza os impactos financeiros
da judicialização e, sobretudo, garante a segurança dos pacientes, considerando
protocolos terapêuticos eficazes e aprovados pelas autoridades de Saúde”.
Para
a psiquiatra Clarisse Moreno Farsetti, especializada em terapia canabinóide, a
lei é um avanço, sobretudo para quem não tem condições de comprar a medicação.
“A gente começa a ter um meio para que pessoas, que não tem condições financeiras
de arcar com o tratamento, muitas vezes nem a papelada mesmo, a compra dos
primeiros produtos. Provavelmente, depois da regulamentação, isso vai ser
possível”.
Clárian e a Síndrome de
Dravet
A
notícia é também um alento para os pacientes que dependem dos medicamentos à
base de cannabis e que, atualmente, só conseguem obtê-los por meio de medidas
judiciais, associações da sociedade civil e outros mecanismos privados.
Moradores
na Vila Formosa, zona lesta de São Paulo, Cidinha Carvalho e o marido, Fábio
Carvalho, descobriram que Clárian era portadora da Síndrome de Dravet quando a
filha era bebê e apresentou um quadro de convulsão. Doença genética rara, a
síndrome, também conhecida como Epilepsia Mioclônica Grave da Infância (EMGI),
é progressiva, incapacitante e não tem cura. Caracteriza-se por crises
epilépticas que podem durar horas e atraso do desenvolvimento psicomotor e
cognitivo.
Antes
de iniciar o tratamento com óleo de cannabis, Cidinha conta que a filha era
apática, não interagia e convulsionava por mais de uma hora, com crises
generalizadas. Não conseguia elaborar frases completas e sem coordenação
motora: não corria, não pulava, não transpirava e sequer subia escadas sozinha.
Durante o sono, tinha episódios de apneia, distúrbio que afeta a respiração,
fazendo com que parasse de respirar uma ou mais vezes ao longo da noite.
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| Fábio,
Clárian e Cidinha enfrentaram longa jornada para ter acesso a medicamentos à
base de cannabis
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De
acordo com a mãe, com o óleo, a saúde de Clárian apresentou melhora
significativa. As crises diminuíram em 80% e ficaram mais curtas, com duração
de menos de um minuto. Após quatro meses de uso, ela começou a transpirar. E em
oito meses, pulou em uma cama elástica pela primeira vez. O equilíbrio, o tônus
muscular e o sistema cognitivo estão melhores, e a apneia durante o sono
desapareceu. Clárian, inclusive, conseguiu iniciar o processo de alfabetização.
Habeas corpus
Até
descobrirem os benefícios do óleo de cannabis para o tratamento da filha,
Cidinha e Fábio passaram por uma longa jornada de aprendizado e de luta contra
o preconceito. Foram muitos passos: primeiro, tinham que importar o remédio a
um alto custo (cerca de 500 dólares, na época); em seguida, conseguiram uma
doação mensal da medicação por meio de uma “rede secreta” no Brasil; assumiram
o risco de cultivar a planta sem autorização; aprenderam a extrair o óleo com
uma organização chilena; e, por fim, conseguiram a autorização da Justiça para
cultivar em casa a cannabis com fins medicinais.
Em
2016, o casal entrou com pedido na Justiça para ter o direito de cultivar e
extrair o óleo em casa para fins medicinais. Nessa época, contaram com o apoio
da Rede Jurídica pela Reforma da Política de Drogas (Rede Reforma).
Dois
anos antes, pacientes e suas famílias já tinham iniciado a luta para conseguir
esse direito, já que o Estado brasileiro não fornecia o medicamento e havia a
ameaça de serem presos por cultivar a planta em casa, apesar de destinada para
fins medicinais.
No
mesmo ano em que Cidinha e Fábio ingressaram com o pedido, um fato marcou essa
jornada: um dos fundadores da Rede Reforma, do Rio de Janeiro, foi preso por
ter cultivo de maconha para fins terapêuticos em sua residência. A partir desse
caso, a rede passou a usar o habeas corpus preventivo, o mecanismo jurídico
utilizado para proteger aqueles que já tiveram a liberdade coagida ou aqueles
que estão sob a iminência de serem presos, para que as famílias tivessem o
direito de cultivo.
“É
assim que surge a tese, da junção da criatividade dos nossos fundadores com a
sensibilidade contra as injustiças causadas pela Lei de Drogas, que começou a
afetar a saúde de tantos brasileiros, prejudicando o acesso a essa saúde, à
dignidade humana”, explica a advogada da Rede Reforma, Gabriella Arima. A tese
foi replicada para milhares de outros casos. Hoje, estima-se que existam cerca
de 2 mil salvos-condutos no Brasil, grande parte concedido pelo Tribunal
Federal de São Paulo (TRF3).
Cultivo
Com
o habeas corpus em mãos, Cidinha e Fábio passaram a cultivar a planta e a
extrair o óleo em casa. E junto nasceu a Cultive – Associação de Cannabis e
Saúde, com a missão de representar os anseios de quem necessita da cannabis
como tratamento e defender a reforma das leis e políticas sobre drogas, de
acordo com o site da associação liderada pelo casal.
Sobre
a sanção da lei paulista, Cidinha diz que o mais importante é que seja
cumprida. “Tão importante quanto a regulamentação é o estado cumprir. Nós temos
três estados que já sancionaram, mas não estão cumprindo. Então, espero que São
Paulo faça a diferença, mas para isso precisa ter uma regulamentação”.
Paraná e Rio de Janeiro
Segundo
a advogada Gabriella Arima, Goiás, Rio de Janeiro e Paraná já dispõem de leis
semelhantes à sancionada em São Paulo, porém ainda há entraves ao acesso aos
remédios. “Ainda há uma dificuldade dos
pacientes obterem esses medicamentos via SUS, o que torna essas leis inócuas”,
aponta.
Sobre
como a Lei paulista pode contribuir para o avanço do debate sobre a política de
drogas no país, a especialista lembra que a legislação trata do acesso, o que
beneficia a população de baixa renda, mas não traz mecanismos que estimulem a
produção nacional desses medicamentos, reforçando a dependência pelos produtos
importados, mais caros. “De um lado, acho que a gente caminha para uma
desmistificação do tema, está caminhando para uma política pública que,
teoricamente, abrangeria os mais pobres, pensando que hoje o tratamento com
cannabis é caríssimo. Mas a gente não tem uma produção interna dos óleos.
Então, dependemos de um mercado externo”, explica.
A
psiquiatra Clarisse Farsetti espera que, na rede pública, os medicamentos à
base de cannabis cheguem também para pacientes que sofrem de epilepsias,
doenças neurológicas e para os que estão em cuidados paliativos. “Em outros
estados, isso está acontecendo e a tendência é que, com o tempo, se fixe cada
vez mais na nossa sociedade, e outras pessoas também tenham acesso ao
tratamento”.
Já
Cidinha deseja que o processo de regulamentação seja feito em conjunto com a
sociedade civil, principalmente com os familiares, pacientes, médicos e
advogados pioneiros nessa luta. “É preciso capacitar os médicos do SUS, não
somente na prescrição, mas no atendimento, no acompanhamento de pacientes que
fazem uso de canabinóides. É preciso fazer uma reeducação na parte policial,
apenas para entender a necessidade do paciente, que precisa do uso da
cannabis”, afirma.
Canabidiol 100% puro
Vale lembrar que a Prati-Donaduzzi, indústria farmacêutica 100% nacional, é especializada no desenvolvimento e produção de medicamentos à base de canabidiol. A farmaêutica é pioneira na comercialização do produto no país e referência no uso do canabidiol em doenças do Sistema Nervoso Central.
Com sede em Toledo, Oeste do Paraná, desde 2019 vem atuando na área de Prescrição Médica, sendo a primeira farmacêutica a produzir e comercializar o Canabidiol no Brasil com o mais alto grau de pureza: 100%.
Viver Toledo - Ano 14
Editoria: Wanderley Graeff e Karine Graeff
Ger. Administrativa:
Luciane Graeff
(45) 98801-8722 - vivertoledo@gmail.com
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