Toledo cria Comitê Técnico de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas
Geralmente,
o assunto “tráfico de pessoas” é associado a episódios em que brasileiros são
enganados por oportunidades de trabalho e acabam sendo colocadas em relações
laborais análogas à escravidão, presas a uma dívida impagável e sem direito de
voltar para casa pois seus documentos foram retidos pelo “agenciador”. O que a
maioria das pessoas não sabe é que esta situação está acontecendo bem próximo
de nós, com imigrantes e refugiados que buscam um recomeço em Toledo e região.
Com
o objetivo de detectar e combater esta prática, representantes de órgãos
públicos e da sociedade civil organizada reuniram-se, na manhã da última
sexta-feira (12), na Sala de Reuniões do Gabinete do Prefeito, com o objetivo
de criar um Comitê Técnico de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas em âmbito
municipal. A ideia foi inicialmente provocada pelo promotor da 2ª Promotoria de
Justiça da Comarca de Toledo, José Roberto Moreira, e vem sendo alimentada
desde a primeira quinzena de abril, quando houve uma videoconferência entre
autoridades de Toledo e Foz do Iguaçu, onde há um grupo de trabalho semelhante
vinculado ao Gabinete de Gestão Integrada do Município (GGIM) que atua em
parceria com representantes do Paraguai e Argentina.
O
encontro contou com a participação de representantes das secretarias municipais
de Assistência Social, de Saúde, da Segurança e Mobilidade Urbana e de
Políticas para Infância, Juventude, Mulher, Família e Desenvolvimento Humano
(SMDH), dos conselhos tutelares, da
Embaixada Solidária, da Polícia Militar, do Núcleo Maria da Penha (Numape) e do
Ministério Público. Todos estes órgãos concordaram em participar do grupo de
trabalho, e foi proposto o convite às secretarias do Agronegócio, de Inovação,
Turismo e Desenvolvimento Econômico e da Educação, à Polícia Civil, a Cáritas,
aos cartórios de registro civil, às universidades e à subseção da Ordem dos
Advogados do Brasil (OAB/Toledo).
Relatos
e resoluções
O
Diretor do Departamento de Políticas de Cidadania e Desenvolvimento Humano da
SMDH, Wellington Silveira, iniciou os trabalhos falando sobre a definição legal
(prevista no Código Penal) do que é o tráfico de pessoas, além de apresentar o
3º Plano Nacional de Enfrentamento ao
Tráfico de Pessoas, que será o documento norteador do grupo que será
instituído. Ainda trouxe as legislações estaduais que compactuam com a criação
de comitê técnico em nível municipal para o enfrentamento ao tráfico de pessoas
e os temas/eixos a serem tratados.
Com
a apresentação das funções da SMDH, o diretor sugeriu que o Comitê seja
vinculado à SMDH. Em seguida, ele apresentou os temas que foram tratados na
visita que alguns representantes fizeram recentemente a Foz do Iguaçu com o
intuito de conhecer in loco o trabalho que já é feito na tríplice fronteira,
ocasião em que aquele comitê se propôs a ajudar na realização do Seminário de
Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas em Toledo, iniciando-se aí as tratativas.
Logo
após, o promotor José Roberto Moreira e a presidente da Embaixada Solidária,
Edna Nunes, trouxeram argumentos que pesaram de forma significativa na decisão
de se criar o Comitê Técnico de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas em Toledo.
“Estamos formando este grupo a fim de padronizar procedimentos, pois
precisamos, diante de situações como esta, agir de forma rápida. São situações
urgentes na qual precisamos ser mais práticos e menos burocráticos”, pontua o
representante do Ministério Público. “A
migração é um processo natural entre várias espécies animais, mas, quando se
trata de seres humanos, é preciso analisar esta questão com mais carinho,
observando se não há violações de direitos que impedem o acesso de imigrantes e
refugiados a serviços públicos”, comenta Edna.
A
presidente da Embaixada Solidária falou também a respeito do cenário do tráfico
de pessoas na região. “Temos 12 mil vagas de emprego abertas no Oeste do Paraná
e, em meio a uma economia que cresce tanto, o número de situações de violação
de direitos também aumenta. Vivemos numa região sem guerra, sem catástrofes
naturais e com ampla produção de alimentos. Para moradores de países que
enfrentam estes problemas, vivemos no ‘paraíso’ e é neste cenário que os
agenciadores se aproveitam para explorar estas pessoas, ficando com parte do
salário que recebem como forma de pagamento da dívida contraída no momento em
que vieram para o Brasil, a qual, propositalmente, nunca é quitada. Para
impedir fuga, os ‘coiotes’, como os chamamos, retêm os documentos das vítimas e
isso as priva de vários direitos”, relata. “Não se trata só de um problema
social ou criminal, mas também econômico, pois as grandes empresas do nosso
município dependem desta mão de obra vinda de outros países para manterem suas
linhas de produção. Por isso, é nosso dever, enquanto sociedade, estarmos mais
preparados para enfrentar e, na medida do possível, superar esta situação,
formando uma rede de proteção que tire o assunto da invisibilidade, o que passa
pela conscientização das próprias vítimas de que estão sofrendo abusos de terceiros”,
detalha.
As
secretárias de Assistência Social e de Saúde, Solange Silva dos Santos Fidelis
e Gabriela Kucharski, respectivamente, defenderam a formação de uma rede
voltada ao combate ao tráfico de pessoas e a necessidade de formar equipes
especializadas no assunto “Precisamos de subsídios para podermos
identificar este tipo de violação de
direito e construirmos fluxos para o melhor encaminhamento”, observa Solange.
“Vejo que os serviços de saúde têm o maior potencial para detectar casos de
tráfico de pessoas. Assim, temos que ensinar nossos servidores a identificarem
situações que fogem do padrão normal e aproveito para deixar um convite para
que a Edna realize uma fala aos gerentes das unidades de saúde para que estes
multipliquem este conhecimento para suas equipes”, pontua Gabriela.
Vem
aí
Aprovada
a criação do Comitê Técnico de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas, o próximo
passo é a edição de um decreto, por parte do Executivo Municipal, instituindo o
grupo de trabalho e relacionando quais órgãos públicos e entidades da sociedade
civil organizada terão assento. Em seguida, estas organizações indicarão as
pessoas que as representarão no colegiado, que passará a se reunir com
periodicidade a ser definida pelo próprio comitê.
Vencidas
estas etapas formais, a primeira missão do comitê será a organização do
Seminário Internacional de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas, previsto para o
dia 27 de julho, na mesma semana que o Dia Internacional e Nacional de
Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas, lembrado em 30 de julho. A princípio, o
conteúdo, em consonância com a campanha “Coração Azul”, será ministrado pela
jornalista Rosane Amadori, que é doutoranda em doutoranda em Sociedade, Cultura
e Fronteiras/Geografia, pela Universidade do Oeste do Paraná (Unioeste).
Em
médio prazo, o comitê trabalhará para a construção de uma agenda de trabalho.
Dessa forma, será possível estabelecer ações prioritários no sentido de superar
este desafio que se apresenta na atual conjuntura socioeconômica do município.
Viver Toledo - Ano 14
Editoria: Wanderley
Graeff, Karine Graeff e Juninho Graeff
(45) 98801-8722
Rua Três de Outubro, 311 – S. 403- Vila Industrial
CEP 85.904-180 – Toledo-PR
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