O dia que peitei o dono da rádio
Histórias do Velho Oeste – Por Wanderley Graeff
12
de abril de 2020
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| Emerson Fittipaldi tambem andou numa máquina igual à minha |
Inspirado
na postagem do amigo Jota Mateus, grande narrador da Rádio Paiquerê de
Londrina, relato também a conquista do meu primeiro carro.
O
ano era 1983. Depois da venda da Rádio União para o grupo do prefeito Albino
Corazza Neto, eleito no ano anterior, e seu sócio Tarcísio Herckert, havia uma
incerteza sobre o futuro dos profissionais da emissora. Os donos até então -
ex-prefeito Duilio Genari, recordista em
mandatos na Assembleia Legislativa entre os políticos do Oeste, vereador
Hermínio de Conto, empresário Waldomiro Giacomazzo, ex-deputado Egon Pudell e o
jornalista Jaime Zeni - perderam a eleição e decidiram vender a rádio, do que
se arrependeriam amargamente, mas era tarde demais.
Jaime
Zeni foi gente boa uma barbaridade.
Luciane Graeff e eu com a Karine
ainda engatinhando, ele tratou de me arrumar emprego na assessoria de Imprensa
da Coopagro. O advogado Sérgio Canan, que respondia pelo Jurídico da então terceira
maior cooperativa do país, fez a ponte, e me somei ao jornalista Humberto
Schvabe, um grande sujeito com quem fiz uma amizade que perdura até hoje.
Schvabe tem a Gazeta do Bairro, no Pinheirinho, em Curitiba, e um dos filhos, o
Rodrigo Schvabe é Gestor de Marketing na Mercado Binário, uma agência de tirar
o chapéu.
Voltando
ao Jaime Zeni, consolidada a venda da União, ele foi para a Rádio Guaçu e me
convidou para a equipe esportiva, que também tinha o narrador Osvaldo Luís e o
comentarista Euzébio Garcia.
Nas
minhas idas e vindas a Cascavel, onde vivia desde a tenra infância, costumava
visitar os amigos que fiz na carreira. A um deles, Valdir Favarin, de quem fui
assessor de Imprensa nos seus tempos de glória no automobilismo, sou
eternamente grato. Certa vez ele me perguntou como ainda andava a pé.
-
O dinheiro não dá, Valdir!
Ele
de pronto me falou:
-
Escolha um carro a e tá decidido! Você nunca mais vai andar a pé.
-
Mas, mas...
-
Me pague como puder - foi decisivo. Não tive como argumentar.
Saí
da garagem do Valdir, na Rua Carlos Gomes, a bordo de um Alfa Romeu 1976, com a
documentação quitada! Era uma máquina o azulão, acabamento impecável, bancos em
couro, detalhes em madeira, ar condicionado. Comecei bem, o carro era um luxo
para a época, mas também um beberrão. A manutenção era um sacrifício enorme
pelo custo. A estreia foi naquele mesmo sábado, no casamento do primo Vilmar
José Cordeiro e Soeli Vilmar Cordeiro. Orgulhoso, da Igreja São Cristóvão, em
Cascavel, os conduzi para o local da recepção.
As
poucas sobras de dinheiro, eu mandava para o Valdir. Era um tempo de inflação
medonha. A bem da verdade, o Valdir me deu aquele carro. E jamais me cobrou. Um
gesto inesquecível de uma pessoa de um coração gigantesco, que ajudou muita
gente.
Naqueles
tempos, vivemos a tragédia do acidente que vitimou Jaime e Euzébio e tirou de
combate por um bom tempo o Osvaldo. Foi em Francisco Beltrão, após um jogo do
Toledo Futebol Clube, Toledão, em Pato Branco. Viagem da qual escapei. Por duas
vezes, quis o destino.
Osvaldo
retornaria à Rádio União no ano seguinte como gerente e me convidou para
assumir o Departamento de Jornalismo. Para lá fui, com meu flamante Alfa Romeo,
que chamava a atenção na esquina das ruas Sarandi e Guarani, onde a rádio
estava instalada no piso superior do prédio existente na esquina do então
Supermercado Real.
Minha
segunda das quatro passagens pela Rádio União durou poucos meses. Me indispus
com Tarcísio Herckert, que censurou uma entrevista com o médico Torao Takada,
sobre a doença do presidente Tancredo Neves. Torao era a única autoridade da
área em Toledo para falar de diverticulite, mas o argumento não adiantou.
-
Se ele quiser falar que compre uma rádio! - determinou o Herckert, que foi o
mais teimoso e vingativo dono de veículo de comunicação que conheci.
Torao
havia sido o principal adversário do grupo corazzista na eleição de 1982.
Herckert foi presidente da Câmara e era o principal escudeiro de Corazza.
Peitei
o dono, que entendia de suinocultura, sua raiz, mas de rádio, bolhufas, um zero
à esquerda - não lembro se foi o Raul D´Avila ou o Sérgio Ricardo que lhe cunhou o apelido: "mente
suína". A entrevista, meramente técnica, foi ao ar. Com Torao Takada, um
grande profissional e uma das pessoas mais generosas que conheci, em nenhum
momento se falou de política. O idealismo pelo bom jornalismo pulsava nas
veias. Vitória sobre a censura!
No
dia seguinte, eu estava demitido pelo homem cujo dinheiro era enorme, mas o
espírito nem tanto. Não teve jeito: tive que me desfazer do possante...
*
Wanderley Graeff é o jornalista com mais tempo de atuação em Toledo. Trabalhou
em jornais e emissoras de rádio e TV de Cascavel e Toledo. É diretor do Viver
Toledo – vivertoledo.blogspot.com e diretor das empresas i-Bolsa e Pharma.Viver
Toledo – Editores: Wanderley Graeff e Karine Graeff







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