Fiocruz vai submeter etapas de produção da vacina de Oxford à Anvisa
Vacina continua em
fase de testes em humanos
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| Eric Gusmão/Filipe Ronqui/TV Brasil |
Por Agência Brasil - A Fundação Oswaldo
Cruz (Fiocruz) vai entregar neste mês à Agência Nacional de Vigilância
Sanitária (Anvisa) documentos para a avaliação das etapas de produção
desenvolvidas pela farmacêutica AstraZeneca e pela Universidade de Oxford para
a vacina contra o novo coronavírus, encomendada pelo Ministério da Saúde.
Detalhes sobre a submissão de documentos à Anvisa foram apresentados pela
vice-diretora de Qualidade de Bio-Manguinhos, Rosane Cuber, em uma oficina
promovida pela Fiocruz na manhã de hoje (4).
A vacina ainda está
em fase de testes em humanos, mas, para acelerar o processo de registro sem
prejudicar o rigor da análise, a agência reguladora iniciou a avaliação das
etapas de desenvolvimento já concluídas.
Em outubro, a agência
recebeu documentos referentes aos resultados dos estudos pré-clínicos,
realizados em animais em laboratórios. O cronograma de submissão contínua segue
a Nota Técnica 78/2020 e deve ser concluído até o fim de janeiro.
"Isso não está
sendo feito só no Brasil. As agências reguladoras de outros países também estão
adotando essa estratégia. A agência inglesa está adotando essa estratégia e, na
agência europeia, há discussões para adotar essa mesma estratégia de submissão
contínua", afirma Rosane Cuber. "Em novembro, a gente submete tudo
que está sendo feito nas empresas que estão sendo contratadas pela AstraZeneca
para produzir a vacina".
No mês que vem, em
dezembro, serão entregues em dois blocos mais documentos que comprovem a
qualidade das etapas de produção e a adequação de Bio-Manguinhos a esses
processos, além dos primeiros resultados que demonstrem segurança e eficácia da
vacina em humanos.
O pedido formal de
registro da vacina deve ser protocolado em janeiro de 2021, e o processo final
de avaliação deve durar cerca de um mês.
A vacina de Oxford
foi a primeira a iniciar a fase de testes clínicos, e os experimentos em curso
envolvem 57 mil voluntários, em sete países, como Brasil, Estados Unidos,
África do Sul e Inglaterra. Os testes em
andamento são chamados de testes de fase três, quando os pesquisadores comparam
a incidência da doença em um grupo de voluntários vacinados com outro que recebeu
placebo.
Nas etapas
anteriores, com menos voluntários, 100% dos participantes vacinados
desenvolveram resposta celular e produziram anticorpos séricos neutralizantes
com duas doses da vacina. Nos casos em que foi testada apenas uma dose, a
resposta celular também foi de 100%, mas a produção de anticorpos caiu para
91%.
A Fiocruz deve
começar a produzir a vacina em janeiro, antes mesmo da aprovação da Anvisa. O
imunizante será produzido no Complexo Industrial de Bio-Manguinhos, que fica
junto à sede da fundação, na zona norte do Rio de Janeiro. O objetivo de
antecipar o processo é ter ao menos 30 milhões de doses até o fim de fevereiro,
quando deve ficar pronto o parecer final da Anvisa com o registro da vacina,
caso todos os testes confirmem a segurança e a eficácia da vacina. Se esse
cronograma se confirmar, Bio-Manguinhos deve entregar em março as primeiras 30
milhões doses ao Ministério da Saúde, para que sejam disponibilizadas à
população, a princípio em um esquema de vacinação com duas doses por pessoa.
Entre março e julho,
a Fiocruz deve produzir mais 70,4 milhões de doses da vacina a partir do
ingrediente farmacêutico ativo (IFA), que será enviado em carregamentos mensais
de 15 milhões de doses pela AstraZeneca durante o primeiro semestre do ano, até
a soma de 100,4 milhões de doses encomendada pelo governo brasileiro.
O IFA usado para
produção da vacina requer uma estrutura de alta tecnologia para seu
processamento, com armazenamento a -65
graus celsius. O diretor de Bio-Manguinhos, Maurício Zuma, explica que investimentos
para processar e nacionalizar a produção do IFA já estão sendo feitos e
envolvem mais de R$ 1 bilhão em recursos públicos e uma doação de R$ 100
milhões de reais da iniciativa privada. Entre as principais ações estão a
adaptação de instalações por onde passará o IFA, a construção de uma área
modular para controle físico-químico e a readequação das instalações de
controle de qualidade.
Com a transferência
de tecnologia prevista no acordo, A Fiocruz planeja iniciar a produção nacional
do IFA no segundo semestre, com uma capacidade mensal de 15 milhões de doses em
um primeiro momento, o que permitirá que mais 110 milhões de doses sejam produzidas
até o fim de 2021. Nos dois semestres do ano que vem, o Brasil deve ter acesso
a 210,4 milhões de doses da chamada vacina de Oxford, que é uma das dez vacinas
que já entraram em testes clínicos de fase três.
No futuro, a Fiocruz
planeja expandir sua capacidade de produção, chegando a 30 milhões de doses por
mês e 300 milhões por ano, já que as paradas necessárias para o controle de
qualidade fazem com que a produção só ocorra em 10 meses por ano. "Estamos
discutindo a ampliação dessa produção com a aquisição de equipamentos maiores,
mas eles não estarão disponíveis tão rapidamente. Não há disponibilidade no
fornecedor para entrega no tempo que a gente gostaria para ampliar a produção
para 30 milhões de doses mês", afirma Zuma.
Prontas, as vacinas poderão
ser armazenadas a uma temperatura de 2 a 8 graus celsius, o que é compatível
com a rede de frios do Sistema Único de Saúde (SUS), segundo Zuma. Cada frasco
terá cinco doses da vacina, que será transportada e armazenada em caixas com 25
frascos, o que facilita sua logística, na avaliação do diretor de
Bio-Manguinhos. A produção e disponibilização de cada dose deve custar cerca de
3,16 dólares.
O vice-presidente de
produção e inovação em saúde da Fundação Oswaldo Cruz, Marco Krieger, avaliou
que as 210 milhões de doses farão com que o Brasil seja um dos primeiros países
a ter uma vacinação significativa no mundo. No ano que vem, somente Estados
Unidos, Reino Unido, União Europeia, Vietnã e Japão devem superar a média de
1,5 dose disponível por habitante, e o Brasil deve chegar a 1 dose por
habitante no fim do ano.
A vacina desenvolvida
pela AstraZeneca e a Universidade de Oxford utiliza a tecnologia de vetor
viral, em que uma sequência genética do coronavírus é inserido em outro vírus,
incapaz de se replicar, para, então, ser injetada no corpo humano e gerar a
resposta imunológica. A vacina utiliza um adenovírus (vírus de resfriado) de
chimpanzé para fazer o transporte da sequência da proteína S do coronavírus,
que forma a coroa de espinhos que dá o nome ao microorganismo. Esses espinhos
são fundamentais no processo de invasão das células humanas e também são
capazes de despertar as defesas do nosso organismo. Os testes clínicos buscam
comprovar que, uma vez vacinado, o corpo
humano reconhecerá essa proteína e poderá produzir defesas que neutralizem sua
ação, impedindo que uma pessoa adoeça ao ter contato com o coronavírus.
Até o momento, a
mutabilidade do vírus não é considerada uma ameaça à eficácia da vacina, já que
as mutações que têm sido observadas pela ciência não apresentam mudanças
estruturais na proteína S, o que indica que vacinas que a adotem como alvo
podem ser eficazes mesmo diante de mutações do coronavírus.
O vice-presidente da
Fiocruz destacou ainda que resultados preliminares de estudos clínicos
conduzidos com idosos na Inglaterra apontam que a vacina não perde eficácia
nessa população, que é considerada grupo de risco para a covid-19.
"São populações
muito vulneráveis à infecção por covid. A maior parte das mortes está nessa
população, que, pelo próprio amadurecimento do sistema imune, tem mais
dificuldade de fazer uma resposta efetiva", afirmou ele, que aguarda a
confirmação dos resultados. "Se isso se confirmar, será um importante
diferencial dessa plataforma tecnológica".
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