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O agronegócio brasileiro e a crescente produção de biocombustíveis

 

Dilceu Sperafico*

O agronegócio brasileiro prossegue surpreendendo positivamente a economia e o bem-estar social do País. Exemplo disso está nos avanços científicos que podem multiplicar por oito a oferta de biocombustíveis para os setores produtivos e a movimentação de pessoas no Brasil. Para isso, descobertas de universidades e institutos de pesquisas brasileiros vêm abrindo caminhos para que o País avance e lidere a transição energética global, através de novo e maior impulso na produção nacional de biocombustíveis. Entre esses avanços científicos está a identificação de bactéria capaz de atuar sobre a celulose de forma inédita, o que representa tecnologia que transforma poluição em compostos renováveis e o uso de matérias-primas não convencionais, como coco, macaúba e trigo, entre outras, na produção de combustíveis renováveis e importantes para a preservação dos recursos naturais.

Conforme especialistas, a trajetória brasileira na geração de biocombustíveis começou nos anos 1970, com a implantação do Proálcool, programa federal que incentivou a produção do etanol como alternativa aos derivados de petróleo, que na época eram pressionados por choque internacional de preços. Em 2005, foi a vez do biodiesel, com mistura de óleos vegetais ao diesel comum inicialmente em 2%, de forma voluntária. Já em 2009, resolução do Conselho Nacional de Política Energética tornou obrigatória a adição, que chegou a 14% em 2024. Desde então, o Brasil produziu 77 bilhões de litros de biodiesel, evitando a emissão de 240 milhões de toneladas de gás carbônico (CO₂), e economizando 38 bilhões de dólares em importações de petróleo.

No Centro Nacional de Pesquisas em Energia e Materiais, em Campinas, São Paulo, estudos identificaram na “matéria escura” genômica, possível chave para novos avanços. A expressão se refere à parcela ainda desconhecida da vida microbiana no planeta, estimada em 99%. Conforme pesquisadores, somente 1% dos microrganismos foi catalogado até agora, o que mostra a importância de programas e tecnologias para explorar a biodiversidade, com novas matérias-primas na produção de biocombustíveis. Neste ano de 2025, por exemplo, a maior produtora de biodiesel do País, iniciou obras de nova planta industrial em Passo Fundo, no Rio Grande do Sul, que será a 1ª do Brasil a gerar o combustível a partir de trigo e triticale. Em São Paulo, há incentivo ao cultivo comercial da macaúba, palmeira rica em óleo. Já em Aracaju, no Sergipe, a Universidade Tiradentes, desenvolve biocombustível a partir da biomassa do coco verde. Somente na cidade, o descarte do produto chega a 190 toneladas por semana.

Todos os processos têm balanço de carbono zero, com o CO₂ gerado reincorporado na biomassa durante o crescimento dos vegetais. Pesquisadores percorreram seis grandes biomas nacionais para recolher amostras de solo e numa delas, coberta por bagaço de cana-de-açúcar, identificaram bactéria com marcadores de ação sobre a celulose. Além desse ganho industrial relevante se pode alcançar outros avanços, como mudar o paradigma sobre o metabolismo da celulose, o polímero mais abundante do planeta. O Brasil, vale lembrar, além de rica biodiversidade, tem muitas fontes de resíduos, como as 400 milhões de toneladas de bagaço de cana por safra, que, se convertidas em biomateriais, poderiam garantir oferta equivalente a oito vezes o consumo atual de biocombustíveis no País.

*O autor é deputado federal pelo Paraná e ex-chefe da Casa Civil do Governo do Estado

E-mail: dilceu.joao@uol.com.br




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