Artistas e produtores analisam mudanças na Lei Rouanet
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| Lei de Incentivo à Cultura: mudança de nome e novas regras (foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil) |
Artistas, produtores e representantes de entidades
culturais se manifestaram hoje (24) sobre as mudanças promovidas pelo governo
federal na Lei Federal de Incentivo à Cultura, antes conhecida como Lei
Rouanet. As medidas alteram os limites de projetos financiados, a distribuição
geográfica dos recursos e criam exceções para algumas categorias de incentivos.
As novas regras estão publicadas no Diário Oficial da União de hoje (24)
As novas regras foram antecipadas pelo presidente
Jair Bolsonaro na semana passada e anunciadas pelo ministro da Cidadania, Osmar
Terra, na segunda-feira (22). O teto dos projetos financiados foi reduzido de
R$ 60 milhões para R$ 1 milhão. O máximo que uma empresa pode financiar na
modalidade incentivada cai de R$ 60 milhões para R$ 10 milhões. A norma passará
a ser chamada pelo seu nome, Lei de Incentivo à Cultura.
As mudanças preveem um foco maior nos estados para
além do eixo Rio de Janeiro-São Paulo. Foram introduzidas novas exigências,
como a ampliação do percentual de ingressos gratuitos, que deverão ser
assegurados entre 20% e 40%. Terão tratamento especial tipos específicos de
incentivo, como para projetos envolvendo patrimônio tombado, construções de
teatro e cinemas em cidades pequenas e planos anuais de museus e orquestras.
A representante do Brasil no Comitê Internacional de
Museus (ICOM – Brasil), Renata Motta, destaca a importância de terem sido
excluídos do limite projetos de restauro de patrimônios tombados e planos
anuais de museus. Essa exceção pode assegurar a recuperação do Museu Nacional,
no Rio de Janeiro, e o Museu do Ipiranga, em São Paulo.
Mas ela pontua que pode haver impactos em exposições
montadas fora dos planos anuais dos museus. “Há empresas que atuam há muito
tempo e que realizaram mostras muito importantes em espaços como o CCBB [Centro
Cultural Banco do Brasil], como a sobre o pintor Paul Klee”, exemplifica Renata
Motta.
Descentralização
Em entrevista à Agência Brasil, a professora da
Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Glaucia Campregher, que atua
na área de economia da cultura, destaca que a descentralização é importante e
que o foco em outros estados distintos do Rio de Janeiro e de São Paulo é um
propósito relevante, assim como a redução dos limites. Mas ela pondera que há
ainda muita desinformação sobre a lei, com a ilusão de que o mecanismo funciona
com o repasse de dinheiro pelo governo a artistas.
A acadêmica lembra que o incentivo opera de outra
forma, com o Executivo habilitando projetos que vão ser financiados ou não
pelas empresas, que decidem no fim onde os recursos vão ser alocados. Por isso,
as novas regras ainda dependem de como as empresas vão atuar na prática. “Temos
que ver como é que vão ser os comitês de avaliação dos projetos, como empresas
vão reagir a isso, como é que vai ‘pegar’.”
Empregos
Na opinião da produtora cultural Andreia Alves
(responsável por espetáculos de renome como o sobre Elza Soares), as mudanças
poderiam ter sido precedidas de um diálogo maior com o setor cultural para
avaliar os impactos, que podem comprometer postos de trabalho. Segundo ela, a
cadeia produtiva da cultura emprega atualmente cerca de 1 milhão de pessoas no
país.
“Acho que faltou uma discussão qualificada antes de
tomar essa resolução. Principalmente com relação ao que vai ser afetado com essa
redução drástica do teto, de ser R$ 1 milhão por projeto, a gente está falando
de redução de empregos drástica de um setor que emprega muito”, sublinha a
produtora.
Outros
mecanismos
Para o secretário de Cultura do Ceará e presidente
do Fórum de Dirigentes Estaduais de Cultura, Fabiano Piúba, a alteração pode
dificultar projetos com orçamentos maiores do que R$ 1 milhão. Mas, em sua
opinião, a discussão para o problema da centralização geográfica do
financiamento da cultura passa também pelo fortalecimento do Fundo Nacional de
Cultura (FNC), formado por verbas do Tesouro Nacional e de loterias.
“A gente está num pedaço do debate. A questão
substancial da democratização do acesso e da desconcentração de recursos é o
fortalecimento do Fundo Nacional de Cultura. É isso que o fórum defende. Este é
o instrumento mais adequado para que os recursos possam chegar aos estados e
municípios. E faltam recursos para este instrumento”, analisa Piúba.
O diretor da Associação de Produtores de Teatro
(APTR), Eduardo Barata, também destaca a importância do fundo. Para ele, o
instrumento mais adequado para a política pública de desconcentração do
financiamento da cultura seria o FNC.
“O Fundo Nacional de Cultura foi criado para essa
função, desconcentrar, apostar na inovação e atender a regiões que não serão
contempladas no mecenato”, avalia.
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